segunda-feira, 11 de setembro de 2023

O CINEMA, O BOLOR E A CORAGEM


Isso vem de "Aquarius". Todo mundo estava acostumado a um cinema certinho, exato, até brilhante dramática e tecnicamente mas, ora ora, orgânico demais. Quem não reverencia "Central do Brasil"? Ou "O Auto da Compadecida" que vai ter uma sequencia em breve? Tá certo. Correto. Mas a questão bem que pode ser essa - a correção, que satisfaz, mas limita. 

Desconfio que Kleber Mendonça Filho chega com aquele ar convencido inerente aos pernambucanos para mexer justamente aí. O cinema dele não se contenta em ser certinho, obedecer aos ditames do roteiro, da luz, da direção de atores, enfim, das boas regras do riscado. 

Os filmes de Kleber Mendonça Filho deixam entrar o que aparentemente pode desorganizar tudo. Espicha situações, insulta a  paleta, entra em quartos que um filme convencional evita. "O som ao redor" abusa dos recortes de tempos, estabelece silêncios, aceita pausas, expõe paralisias. Ou então se arrisca pintando de sangue as águas de uma cachoeira agrestina. Estuda situações, cutuca desconfianças, não esconde soluços e engasgos - estrebucha se for o caso.

"Bacurau" reescreve o sertão, sem se agarrar praticamente a nenhum modelo anterior - apenas se apropria do que ali já era natural, violência à parte. Mas a violência - que perfila o poder externo e extremo e dita a invisibilidade de quem deseja fazer sumir - é acrescida à não-receita sem dó nem inverdade. Ela precisa estar presente e revoar no ar que nem poeira de redemoinho. Chove sangue sobre o mato verde do inverno mais recente - e daí? Daí que brotam pés de verdade no chão jamais adubado. 

"Aquarius" pega a especulação imobiliária, o assédio praticado pelo poder econômico, as esquina da idade para uma mulher urbana, a necessidade desesperadora da memória e junta tudo num filme que abre avenidas narrativas sem medo de se perder no roteiro ensaístico-sentimental. Com Kleber Mendonça Filho, pode. Tá liberado. 

Ocorre a você algum produto do supercine nacional que arrisque - pelo menos, tanto assim - a botar o pé fora do quadrado da convenção, ainda que seja a convenção mais cultuada? Talve no Luiz Fernando Carvalho de "Lavoura Arcaica" - academicismos à parte já que, no cinema ou na televisão, este é um diretor muito mais formalista. Nesta comparação, Kleber Mendonça Filho soa como o cúmulo da espontaneidade. E "Retratos Fantasmas" traz para o documentário literário essa corajosa permissividade. 

No novo filme, Kleber Mendonça vai como que puxando o fio de uma conversa comprida, dessas de tio velho que odeia o zap e aprecia mesmo é um bom boteco. Como quem não quer nada vai lhe levando nesse passeio sobre o que aquele senhor tão bonito - o tempo - fez e faz, apronta e presepeia. O tempo parece ser o protagonista de "Retratos". O dinheiro e suas rotas imprevisíveis, o vilão. 

O apartamento, o centro do Recife, os cinemas e as igrejas evangélicas, que dividem o filme como quem separa os cômodos de um velho casarão, são os instrumentos. 

João Moreira Sales, numa a esta altura antiga série documental a que eu e meus amigos de então assistíamos embasbacados, "América", na TV Manchete, dizia a certa altura que a decadência é caprichosa - ela cuida dos detalhes. 

Foi ver as manchas de bolor em praticamente todos os elementos de cada cena de "Retratos Fantasmas" e lembrar da força invisível, mas incontestável do mofo que o irmão de Walter Sales destacava. Essa matéria suja está nas imagens mas também na estrutura, no propósito e na linguagem à parte que os filmes de Kleber Mendonça Filho se permitem. 

Os mortos falam, diz um clichê bem gasto. "Retratos Falados" comprova, mais uma vez. 

E mais uma vez Kleber Mendonça Filho assina sua diferença no cinema brasileiro. 

Não é pouco fazer filmes que já nascem clássicos. 

Em casos assim, tem que prestar atenção nos motivos. 

UM FILME, DEZ LIVROS



"Retratos Fantasmas", o filme, é um como um lambe-lambe de praça pública. Aciona a nostalgia. Machuca os corações de quem viu aquele outro Recife, o dos anos 80. Arremessa o espectador direto na máquina do tempo. Claro que não faz só isso - mas faz. E bem. Foi vendo o filme pela segunda vez que me brotou essa lista, como pé de flor teimosa no meio-fio da avenida Conde da Boa Vista. Tudo culpa da Livro 7 (foto). Tudo culpa do cinema. Tudo culpa da memória. Preciso pagar a conta e lá vai, uma lista saudosista de dez livros que comprei no ano de 1984 entre a rua da Imperatriz e as vizinhanças da lanchonete Cascatinha, das cercanias do São Luiz à rua do Hospício. 


1. FELIZ ANO VELHO, de Marcelo Rubens Paiva - Era o campeão de vendas do ano, o renovador das letras, o documento político que apresentava a ditadura já demente à geração que havia acabado de deixar o ensino médio. Acabou de ter um relançamento comemorativo de aniversário de 40 anos, quem diria. Mas todo mundo já teve 18 anos um dia.


2. HENFIL NA CHINA, do próprio - Era um relato de viagem, porque já ali a China era motivo de muita curiosidade. Henfil era uma estrela na IstoÉ e no Jornal da Globo e ainda batia ponto de manhã na bodega de Marília Gabriela, a TV Mulher, com o TV Homem. Uma voz que traduzia o momento, com todas as contradições a quem todos, anônimos ou célebres, temos direito.


3. DIÁRIO DA CRISE, de Fernando Gabeira - É preciso retroceder com coragem, meu camarada. Este era outro Fernando Gabeira, pré-chá de cadeira dado por José Dirceu que o transformou numa estátua de sal de ressentimento e o resto todos sabemos. Vinha de uma série de sucessos editoriais que publicou a partir da volta do exílio. 1983 houvera sido um ano de profunda crise no país - seca, inflação, ditadura sem prestígio e sem dinheiro, por aí - e o farol do novo comportamento político que arejava bandeiras dava seus veredictos. Já sem causar tanto impacto quanto antes. 



4. NÃO À RECESSÃO E AO DESEMPREGO, de Celso Furtado - Aqui se abre a ala dos economistas. Eles eram muito interessantes naquela época ao contestar as bases ortodoxas do regime e insuflar heterodoxia na agenda do dinheiro pátrio. Celso, monstro sagrado, batia-se contra o inimigo de dez entre dez brasileiros de uma classe média desencantada com os galardões dos generais: a receita do arrocho total para combater a carestia. Lançado no final do ano anterior, o 1983 de triste memória.


5. OS JUROS SUBVERSIVOS, de Joelmir Beting - Na mesma pisada do livro anterior. Outro dia Lula andou reclamando com o Simonsen da hora pelo mesmo motivo, e quando você consultou o relógio não era 84 mas quase 2024. Juro alto no Brasil é quase cláusula pétrea. E, sim, Joelmir era, mais que o tradutor dos mistérios do economês, um poeta da numerologia dos bancos e quebrantos. Faz muita falta. 


6. BOMBA NO RIOCENTRO, organizado por Belisa Ribeiro - Um livro de momento, o tal instant book, que eu li com a avidez de quem consome hoje a Trilogia Napolitana ou a série nórdica Millenium (não confundir com instituições direitonas, faz favor). Sedento por informação política, era preciso ficar em dia com aquele passado que não acabava nunca. Aqui, Belisa, musa do telejornalismo de então, publicava pela Codecri - a  editora do Pasquim, que definiu uma época - uma espécie de dossiê mostrando como os últimos extremistas da ditadura tentaram produzir o atentado no show do Dia do Trabalhador no Riocentro e falharam. E como, depois, trataram de jogar a culpa nos seus opositores. Fala a verdade, você acabou de ver esse filme de novo no tal 8 de janeiro, foi não?


7. LENNON, de Lúcia Vilares - A editora brasiliense era a preferida de quem tinha menos de 32 dentes. Com várias séries de livros, como essa Encanto Radical, com biografias de figuras do mundo pop-intelectual. A Veja na época chamou de "cultura como sorvete". Era bem isso e os sabores cada um melhor que o outro. Recomprei um exemplar recentemente e meu filho Bernardo leu com tanta gana que praticamente destruiu o exemplar. Agora, é dele - eu se quiser que compre outro, né legal?



8.ROCK, O GRITO E O MITO, de Roberto Muggiati - Um dos livros que mais apreciei na vida. Ensaio curto do jornalista que eu já conhecia pelos textos publicados na revista Manchete, Muggiati lhe fornecia um mapa para saber o mínimo do gênero musical e lhe garantir conhecimento caso fosse solicitado numa conversa casual. Recentemente reencontrei uma edição novinha e comprei de novo. Um autêntico tesouro da juventude.


9. 1984, de George Orwell - Pois é, o famigerado livro que virou o Pequeno Príncipe de tudo quanto é bolsominion ignorante teve uma onda de sucesso naquele  distante... 1984. A coincidência do ano levou ao relançamento. Não, senhor, não havia no horizonte qualquer obsessão anticomunista como a que ocorre nesse espantoso hoje em dia; ao contrário, estávamos saindo da ditadura e ideias socialmente igualitárias eram muito bem vindas. Como todos, eu li e foi bom que o tenha feito então para saber do que se trata sem depender do ouvi-dizer, como desconfio que acontece hoje com muito ressentido. 


10.COM LICENÇA EU VOU À LUTA, de Eliane Maciel - Outro campeão de vendas do momento. A garota da baixada fluminense cuspiu num livro-depoimento toda sua rejeição aos esquemas de vida de certa classe média baixa em que nascera, lançando um grito por mais liberdade, mais autonomia, menos padronização, num diálogo indireto com livros como o Feliz Ano Velho que abre esta lista. Prometia, a Eliane. O livro virou filme com Fernanda Torres fazendo Eliane. Mas até onde sei a escritora parou no livro seguinte, uma até onde lembro fantasia trópico-medievalista que eu também li e que não a levou adiante. 



quinta-feira, 7 de setembro de 2023

TUDO BEM COM VOCÊ?


Parecia um complô, do bem. No dia em que minha filha Cecília teve sua primeira aula no curso de Comunicação em Audiovisual da UnB, um momento muito esperado por ela e por todos aquele que brinco chamando de "família bagunçada, ou Fbag", fomos juntos ao Cine Brasília - um lugar que eu sempre quis que ela frequentasse. O Cine Brasília é como uma mulher de fases: ora tá aberto, ora fechado, às vezes funciona mas meio largado, depende sempre do interesse por cinema, por arte, por parte de quem está mandando no governo do Distrito Federal. 

Pois agora, agora mesmo, demos sorte: o Cine Brasília tá numa fase das melhores. Busque a conta deles no Instagram e você poderá perceber o que digo aqui. Pois bem, no dia do primeiro dia de aulas deste segundo semestre na UnB, estreou também um projeto do curso de Cecília - a retomada do projeto, na verdade, depois da interrupção durante a pandemia - chamado Cine Beijoca, que reexibe no Cine Brasília, aquele colosso de tela que temos o privilégio de ainda ter na cidade, filmes marcantes do cinema brasileiro, seguido de um debate com quem estiver disposto a comentar. 

Eu não sabia de nada disso até Cecília passar por mim em casa toda arrumada perguntando se eu ia. Eu ia pra onde? Pro Cine Brasília. O que tem lá hoje? O Cine Beijoca, ora. Imaginei de cara uma dessas festas universitárias turbinadas que movimentam o campus da UnB e matam de raiva os bolsominions de Brasília que se ajoelham aos pés de Bia Kicis e similares. Retomando: O que é esse Cine Beijoca? Ah, uma mostra de filmes brasileiros que estão fora de cartaz pros alunos da UnB mas que todo mundo pode ver. Beleza, legal, interessante. E qual é o filme de hoje? Cecília pegou um papelzinho pra consultar e me surpreendeu: era Tudo Bem, que Arnaldo Jabor, muito antes da fase globoantipetista com que infelizmente é mais lembrado depois de morto, lançou em 1978, com Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e os então infantes Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães, além, claro, da grandiosa Zezé Motta - que por sinal protagoniza a melhor cena do filme e aquela pela qual ele é lembrado até hoje (e olhe que a concorrência é pesada, há muitas ótimas sequências em Tudo Bem).

O filme, se fosse realista, funcionaria hoje um documentário involuntário sobre a classe média carioca dos anos 70. Era essa mais ou menos a minha expectativa quando Cecilia me disse o que iria passar no Cine Brasília. Eu havia visto Tudo Bem apenas em fita de  VHS há muitos anos mas lembrava muito bem do que se tratava: uma amostra grátis do Brasil médio - ao menos o Brasil do sudeste, é preciso lembrar - a partir de uma crônica feita com cenas que mais parecem esquetes do dia-a-dia de uma família na cidade do Rio de Janeiro durante as obras no apartamento onde mora. 

Isso é o resumo da opereta. Nas mãos de Jabor, o que temos uma daquelas ótimas carnavalizações da realidade brasileira, numa sucessão de cenas que a mim lembrou muito um desfile de escola de samba. Temos a comissão de frente (a cena em que o pai de família Gracindo escreve, com a ajuda de seus fantasmas mais caros, cartas a um jornal), temos evoluções de passistas gostosas (a empregada Zezé Motta seminua tocando fogo na cozinha e corredores puxando um samba com cabo de vassoura e bandeira de pano de prato), temos a grande apoteose na última sequencia (quando Paulo Cesar Pereio comanda um festivo discurso na algaravia do apartamento cheio para comemorar nem se sabe bem o que mesmo). Tudo isso numa progressão análoga à passagem de alas e mais alas numa Marquês de Sapucaí de celulóide. O filme tem ainda uma ironia fina que, infelizmente, por assim dizer não se usa mais: a última imagem traz as cataratas do Iguaçu (ou seria Sete Quedas? não importa, vale o efeito) ao som de uma dessas composições de Villa Lobos, um escracho com o Brasil grande já à deriva naquele distante 1978. 

Depois de rever Tudo Bem, fiquei pensando o que seria daquela família nesta segunda década dos anos 2000. Paulo Grancindo e Fernanda, o casal, certamente teriam entrado para as fileiras do bolsonarismo zona sul do Rio com panelas e bandeiras. As cartas do leitor seriam substituídas por troca de fake news nas bolhas formadas pelas redes fanáticas da internet facista. Gracindo estava fadado a se tornar um daqueles manjados tios do zap. A mal comportada filha Regina talvez tivesse trocado o lar-doce-lar de Copacabana por alguma das cracolândias do eixo Rio-SP. E o mauricinho pro-mercado de Luiz Fernando Guimarães nem no Brasil estaria mais - poderia se converter num desses bloqueiros bolsonaristas que se refugiam nos zéua tremendo de medo de um mandado de prisão expedido por um tal de Alexandre impensável naqueles tempos.

Tudo bem. E Tudo Bem, o filme, segue, à sua maneira, bem atual com seu jeito de chanchada irônica, sua anti-encenação que faz do exagero dos atores um grito da nova-velha realidade que evoca a era dos generais do Rio ao Rio Grande do Sul. 

Vejamos o que o Cine Beijoca traz pra gente nas próximas edições, toda última sexta-feira do mês no Cine Brasília. 


BREAKING BAD FROM SERIDÓ

 


Não foi apenas a premissa semelhante que me fez linkar de cara a série Cangaço Novo, do Prime Video, com o a esta altura já velho Breaking Bad, da HBO. Além do ponto de partida do cara que envereda pelo caminho da criminalidade – algo meio só aparentemente soft no caso de Walter White mas abertamente violento quando do protagonista do Cangaço – em circunstância que soa natural e inevitável, houve as sequencias de abertura de cada episódio.

Essas cenas iniciais, captadas em branco e preto e claramente destacadas da narrativa que vem à frente, levando a história para trás em flashes ultrabemcuidados, recorre a um recurso do Breaking Bad, com a diferença que lá o miniepisódio inicial podia ser uma pista do que viria à frente, ou lateralmente – era algo menos claro do que vemos no Cangaço, mais pra uma insinuação, algo intrigante que o espectaddor precisava encaixar de alguma maneira no que viria a seguir.

O link se estabeleceu de imediato, antes mesmo de aparecer o sujeito que leva a história pra frente com sua carga de injustiça particular. Pra quem perdeu Breaking Bad (comeu essa mosca? Vá atrás), tínhamos um professor de química desempregado e acossado por um câncer no país onde saúde custa cada célula do corpo em dinheiro vivo. Restava a ele usar os conhecimentos da matéria pra fabricar poderosas anfetaminas e cair nas malhas das redes do tráfico. Bem perto do caso do ex-bancário e militar igualmente sem ocupação e com uma conta milionária para sustentar o pai adotivo internado numa UTI paulistana que dá de cara com uma quadrilha de assaltantes de bancos no poeirão das pequenas cidades do Ceará e arredores.

Mas as semelhanças certamente param por aí – estou apenas no terceiro ou quarto episódio. Tudo bem que o Novo México da série americana muitas vezes lembra, pela aridez da natureza em volta, os desertos do nosso Seridó, potiguar ou paraibano, que servem de cenário ao Cangaço. Parelhas seria o nosso Albuquerque? Claro que não, são apenas diálogos imaginártios e naturais a  quem consome muito audiovisual. Um parênteses pra anotar que, se a divisão das unidades da federação brasileiras não tivessem seguido tanto o mapa das capitanias hereditárias, o Seridó seria um estado, como a Bahia ou Sergipe – porque culturalmente é um capítulo à parte, homogêneo e bem diverso, por exemplo, do oeste potiguar, ficando muito mais aparentado de uma parte da Paraíba. Fim do parênteses.

Mas é curioso que a série gringa tinha um estouro de luz e cor, explosões de púrpuras e amarelos que Cangaço Novo evita, ao adotar uma pastelização visual imagino que para dar um pouco de sobriedade a situações de tamanha violência. O Seridó de Cangaço parece sempre nublado – o que, quem conhece a região sabe, é bem raro por lá – enquanto a quentura saturada da série da HBO talvez reforçe um calor que era preciso turbinar, afinal ali estávamos entre famílias de classe média que mal sentiam a vizinhança disfarçada de quadrilhas de traficantes mexicanizados.



Ambas são ótimos exercídios de audiovisual fora das caixas saturadas que nos foram entregues por anos. O elenco de Cangaço quase que totalmente mais próximo desse interior confere uma autenticidade que um Selton Mello, por melhor que seja, jamais seria capaz. Mais Alice Carvalho e menos Débora Bloch é a pedida do momento – e demorou, sem demérito para nossa para sempre Beth Balanço. O que se perde em estrelado se ganha em verdade dramática. Importante é certo cuidado pra não glamourizar essa forma de marginalidade que, sim, vem se tornando comum no interior de todo o Nordeste brasileiro. Os ataques às cidades – que até onde sei se dão a noite alta, pela madrugada, quando todos dormem em pequenas e médias cidades – causam susto apavorante. A própria Parelhas, minha cidade de origem e que serve de locação para parte da série, passou por isso. Noite de medo e apreensão absoluta sob o luar daquele belo Boqueirão que serve de fundo para diálogos entre Hermilla Guedes e Allan Souza Lima.
 

A série, que ainda não acabei de ver, relembro, precisa ter esse distanciamento para não inspirar levas de novos cangaceiros (lembrai-vos do fenômeno britânico após a estreia de Laranja Mecânica que levou Stanley Kubrick a tirar o filme de cartaz, sim, senhor). Claro, a arte dramática, como quase todas, lida com a beleza e a feiúra do mundo, vai direto no que incomoda, o que não tem respostas prontas, o que machuca, o que gera interrogações. Cangaço Novo se infiltra nas nossas contradições regionais para ir construindo o retrato desse novo e triste fenômeno social que, à sua maneira, atualiza também – eu disse também, porque este não pode ser o único ângulo de visão – nossos conflitos históricos e muitas vezes calados à força. Parece que os nativos tapuias não morrem nunca, estão impregnados em cada seridoense como eu desde os massacres da Guerra dos Bárbaros. Basta provocar.

Pelo Cangaço Novo, a série, e pela outra da HBO, vê-se o quanto é fácil enveredar pelo braking bad de cada um. Reconhecendo, fica mais fácil resistir – espera-se.  

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

A NOVA ENCARNAÇÃO DE HELEN MIRREN

                         


Por mais que a gente – eu, você, Mariana Monteiro e todo mundo que não consegue ficar mais de 30 dias sem entrar numa sala de cinema – goste de Helen Mirren, dessa vez foi demais. Em “Golda”, o filme que mostra a tensão que a então primeira-ministra israelense enfrentou durante os dias da Guerra do Yom Kippu, em 1973, com toda aquela carga de dramaticidade que hoje, vistos de longe, parecem ter tido todos os acontecimentos políticos e militares daquela década, a câmera, o diretor, o sonoplasta, o cenógrafo, todos, todos, todos parecem não se distanciar nunca mais de 30 centímetros das fuças da atriz britânica.

Pra efeito de comparação, nem no igualmente tenso “O informante”, petardo de 1999 dirigido por Michael Mann, um filme colou tanto no pescoço do seu protagonista. Nesse outro, quanto mais tenso Russell Crowe ficava, mais o filme, e a gente do lado de cá, escalava o cangote do ator australiano. O recurso acentua ainda mais a ansiedade de personagens como aquele – o químico que, enfrentando muita pressão, abriu para o mundo o funcionamento da máquina de dependência dos cigarros comuns.

Mas nesse outro filme – que entrou aqui pra ajudar, não pra dispersar o assunto – havia toda uma circunstância que dava um respiro pra gente e pras fuças de Crowe. No caso da reconstrução cinematográfica de dona Golda Meir, né bem assim não. O fotógrafo enquadra o rosto dela e lá fica – sai um pouco, ok, mas é um quase nada quando se faz a contagem da impressão final dos planos e quadros. Frequentemente, sai para ficar onde está, como quando mostra a primeira-ministra em um panorama que não tem mais nada, só o vazio do céu ou de uma parede, quando muito um murinho baixo. Vez por outra sua assistente onipresente que, ironicamente, parece reforçar ainda mais a superexposição de Helen Mirren. Haja solidão – e é preciso admitir que os acontecimentos em volta justificam essa tensa proximidade. Mas o motivo não supera o cansaço pra quem está do lado de cá da tela.

Os acontecimentos em volta, eles mesmos só comparecem indiretamente. É forte, impactante, mas nunca vamos de fato à frente de combate. Claro que entramos na sala de exibição esperando muito mais um drama sobre o poder político do que um “filme de guerra”. Ainda assim, umas poucas cenas do tipo videogame da futura Guerra do Golfo parecem pouco. E não adianta espernear, que aqui a opção do cineasta impõe-se a qualquer ansiedade do seu público. A guerra do Yom Kippu vem a nós por meio apenas do que chega aos olhos, aos ouvidos e à mente desafiada de Golda/Helen – ou seja, ao grande close totalizador que quase nunca o filme abandona.

Sons, ruídos, flashes ultrarrápidos, tudo isso cruza o panorama do rosto da atriz. Rosto que se converte em uma espécie de caverna de Platão por onde chegam os reflexos do mundo real. As expressões de Helen Mirren acabam sendo o narrador oculto do que se passa na tela. O episódio desta guerra é apenas um dos complexos elementos que fazem parte do quebra-cabeça que configura a formação e a consolidação do estado de Israel. Mas você terá que deduzir tudo a partir dos diálogos em gabinetes governamentais ou trancado nesta sala esfumaçada que é a mente visível de Golda Meir exibida pelo filme.  

Muita gente prefere não saber nada sobre um filme antes de vê-lo. Eu sou do time que aprecia um prefácio. No caso de “Golda”, sei não, mas arrisco que uma wikipedia ligeira fará grande diferença. O mais é soprar da mente a Elizabeth turrona que Mirren fez brilhantemente no muito mais deglutível “A Rainha” e fazer um teste de resistência nessa nova encarnação da atriz.  

UM NOVO SERTÃO DE EXCESSOS

  Um clássico de Guimarães Rosa, em um roteiro de Jorge Furtado, com direção de Guel Arraes e produção de Heitor Dhalia. Eis o tipo do filme...