Isso vem de "Aquarius". Todo mundo estava acostumado a um cinema certinho, exato, até brilhante dramática e tecnicamente mas, ora ora, orgânico demais. Quem não reverencia "Central do Brasil"? Ou "O Auto da Compadecida" que vai ter uma sequencia em breve? Tá certo. Correto. Mas a questão bem que pode ser essa - a correção, que satisfaz, mas limita.
Desconfio que Kleber Mendonça Filho chega com aquele ar convencido inerente aos pernambucanos para mexer justamente aí. O cinema dele não se contenta em ser certinho, obedecer aos ditames do roteiro, da luz, da direção de atores, enfim, das boas regras do riscado.
Os filmes de Kleber Mendonça Filho deixam entrar o que aparentemente pode desorganizar tudo. Espicha situações, insulta a paleta, entra em quartos que um filme convencional evita. "O som ao redor" abusa dos recortes de tempos, estabelece silêncios, aceita pausas, expõe paralisias. Ou então se arrisca pintando de sangue as águas de uma cachoeira agrestina. Estuda situações, cutuca desconfianças, não esconde soluços e engasgos - estrebucha se for o caso.
"Bacurau" reescreve o sertão, sem se agarrar praticamente a nenhum modelo anterior - apenas se apropria do que ali já era natural, violência à parte. Mas a violência - que perfila o poder externo e extremo e dita a invisibilidade de quem deseja fazer sumir - é acrescida à não-receita sem dó nem inverdade. Ela precisa estar presente e revoar no ar que nem poeira de redemoinho. Chove sangue sobre o mato verde do inverno mais recente - e daí? Daí que brotam pés de verdade no chão jamais adubado.
"Aquarius" pega a especulação imobiliária, o assédio praticado pelo poder econômico, as esquina da idade para uma mulher urbana, a necessidade desesperadora da memória e junta tudo num filme que abre avenidas narrativas sem medo de se perder no roteiro ensaístico-sentimental. Com Kleber Mendonça Filho, pode. Tá liberado.
Ocorre a você algum produto do supercine nacional que arrisque - pelo menos, tanto assim - a botar o pé fora do quadrado da convenção, ainda que seja a convenção mais cultuada? Talve no Luiz Fernando Carvalho de "Lavoura Arcaica" - academicismos à parte já que, no cinema ou na televisão, este é um diretor muito mais formalista. Nesta comparação, Kleber Mendonça Filho soa como o cúmulo da espontaneidade. E "Retratos Fantasmas" traz para o documentário literário essa corajosa permissividade.
No novo filme, Kleber Mendonça vai como que puxando o fio de uma conversa comprida, dessas de tio velho que odeia o zap e aprecia mesmo é um bom boteco. Como quem não quer nada vai lhe levando nesse passeio sobre o que aquele senhor tão bonito - o tempo - fez e faz, apronta e presepeia. O tempo parece ser o protagonista de "Retratos". O dinheiro e suas rotas imprevisíveis, o vilão.
O apartamento, o centro do Recife, os cinemas e as igrejas evangélicas, que dividem o filme como quem separa os cômodos de um velho casarão, são os instrumentos.
João Moreira Sales, numa a esta altura antiga série documental a que eu e meus amigos de então assistíamos embasbacados, "América", na TV Manchete, dizia a certa altura que a decadência é caprichosa - ela cuida dos detalhes.
Foi ver as manchas de bolor em praticamente todos os elementos de cada cena de "Retratos Fantasmas" e lembrar da força invisível, mas incontestável do mofo que o irmão de Walter Sales destacava. Essa matéria suja está nas imagens mas também na estrutura, no propósito e na linguagem à parte que os filmes de Kleber Mendonça Filho se permitem.
Os mortos falam, diz um clichê bem gasto. "Retratos Falados" comprova, mais uma vez.
E mais uma vez Kleber Mendonça Filho assina sua diferença no cinema brasileiro.
Não é pouco fazer filmes que já nascem clássicos.
Em casos assim, tem que prestar atenção nos motivos.








