segunda-feira, 17 de junho de 2024

UM NOVO SERTÃO DE EXCESSOS

 


Um clássico de Guimarães Rosa, em um roteiro de Jorge Furtado, com direção de Guel Arraes e produção de Heitor Dhalia. Eis o tipo do filme que já chega alardeando: é tanto talento junto que ou vai dar muito certo ou totalmente errado. Por excesso, de tudo.

Respire, deu certo. Pra mim, ao menos. E com excessos, sim.

Excesso é o que não falta no “Grande Sertão” que os cinemas exibem – e veja no cinema, por caridade. É o tipo do filme feito pra isso, streaming é prático mas desperdiça luz, energia, alcance, brilho.

Cinema é no cinema, como disse Caetano Veloso na entrevista do último sábado à Folha de S. Paulo, a propósito de falar do livro que reúne textos sobre filmes escritos por ele na primeira juventude em Santo Amaro e outros excertos (“Cine Subaé”).

Voltando. O “Grande Sertão” de Arraes, Furtado & Dhalia é um excesso só. Bem do tipo que faz muita falta no audiovisual brasileiro atual. Nele, o filme, tudo é gritado, discursado, explodido ora em palavras, ora em cores saturadas, ora em cenografia sem paralelo.

Os atores não dizem uma fala com o naturalismo televisivo. Cada sílaba sai com a força de um monólogo glauberiano. Estamos em plena representação dionisíaca; este “Grande Sertão” é um banquete pantagruélico que nem aquele do “Macunaíma” de Joaquim Pedro. Como era excessivo o nosso cinema, como era bom. Lembrei de Gabriel Vilela, no teatro.

Mas o novo “Grande Sertão” está aí.  Nada de mineirismos da fonte primária. Tudo a ver com o cinema novo mais entusiasmado. Um filme-estandarte, repleto de conexões com o Brasil comum aqui de fora da tela.

Tudo explode nela, uma parangolé em movimento constante, como a lição de Diadorim para Riobaldo Tatarana: ao lutar, nunca fique mais que um segundo no mesmo lugar. O filme luta, mexe-se, vai arrastando na sua rede de imagens, palavras, situações e sociologias os retalhos do caos.

O Brasil dos escravizados, que gerou o Brasil dos jagunços, que gerou o Brasil dos assaltantes, que gerou o Brasil dos traficantes, que gerou o Brasil dos milicianos, que que que. E assim o filme salta da tela pro lado de cá.

Acostumados que estamos à calmaria imóvel do streaming que os olhos digerem com o Gastrol da preguiça, a gente até se incomoda na primeira meia hora. Besteira. Só o tempo de cair na ciranda de Arraes, Furtado & Dhalia, saltando o muro deste “Sertão” reconstruído em fórmula de fábula feroz.

Claro que lembrando, até a primeira meia hora, da adaptação de Walter Avancini para a Globo em 1985. A televisão não permitia ousadias como as desta nova versão. Aliás, já era milagroso que a televisão acomodasse a mera adaptação comportada – e ela foi bem mais que isso.

Mas não tem paralelo. O berro em forma de cinema que é o novo “Grande Sertão” recusa assentamentos de poeira. Quer mais é ver o redemoinho arrastar tudo e todos. Nesse avoar, há perdas – não tem como.

A principal é Hermógenes, nosso Coronel Kurtz neste coração das Minas. Ele é o nosso “o horror, o horror, o horror” – a criatura que foi além de toda humanidade possível e se pareou com a essência do mal. Não há como aniquilar da memória o Hermóneges de Tarcísio Meira – assustador só com  o olhar e raras palavras, presença totalizante de uma entidade a emitir sua sombra imensa sobre o sertão sem fim.

No filme, Hermógenes cedeu à algaravia necessária – e foi o prejudicado.  O ator, Eduardo Sterblitch, é sabidamente fera. Mas a direção pediu demais, desconfia o espectador. O novo “Grande Sertão” entrega um Hermógenes hipertrofiado, quase criatura digital importada do “Senhor dos Anéis”, tão além da conta que lhe extrai a força. O excesso, aqui, paga seu preço.

Mas há compensações – uma em especial: o Zé Bebelo de Luís Miranda surge e domina tudo, plantando sua figura múltipla no centro da vereda exangue. Miranda insere trinta mil Zé Bebelos dentro da mesma pessoa – o oportunista, o sedutor, o empático, o piadista, o bolsonarista, o populista, o confiável, o indefensável, o inteligente e o instintivo – tudo dentro da mesma pessoa. Como é possível? É, só. O triunfo do excesso bem conduzido. A súmula dos excessos benfazejos do filme. Deus guarde Luís Miranda e seu Zé Bebelo, retrato do Brasil.

Ao cinema, já.

UM NOVO SERTÃO DE EXCESSOS

  Um clássico de Guimarães Rosa, em um roteiro de Jorge Furtado, com direção de Guel Arraes e produção de Heitor Dhalia. Eis o tipo do filme...