Um clássico de Guimarães Rosa, em um roteiro de Jorge Furtado, com direção de Guel Arraes e produção de Heitor Dhalia. Eis o tipo do filme que já chega alardeando: é tanto talento junto que ou vai dar muito certo ou totalmente errado. Por excesso, de tudo.
Respire, deu certo. Pra mim, ao menos. E com
excessos, sim.
Excesso é o que não falta no “Grande Sertão” que os
cinemas exibem – e veja no cinema, por caridade. É o tipo do filme feito pra
isso, streaming é prático mas desperdiça luz, energia, alcance, brilho.
Cinema é no cinema, como disse Caetano Veloso na
entrevista do último sábado à Folha de S. Paulo, a propósito de falar do livro
que reúne textos sobre filmes escritos por ele na primeira juventude em Santo
Amaro e outros excertos (“Cine Subaé”).
Voltando. O “Grande Sertão” de Arraes, Furtado &
Dhalia é um excesso só. Bem do tipo que faz muita falta no audiovisual
brasileiro atual. Nele, o filme, tudo é gritado, discursado, explodido ora em palavras,
ora em cores saturadas, ora em cenografia sem paralelo.
Os atores não dizem uma fala com o naturalismo
televisivo. Cada sílaba sai com a força de um monólogo glauberiano. Estamos em
plena representação dionisíaca; este “Grande Sertão” é um banquete pantagruélico
que nem aquele do “Macunaíma” de Joaquim Pedro. Como era excessivo o nosso
cinema, como era bom. Lembrei de Gabriel Vilela, no teatro.
Mas o novo “Grande Sertão” está aí. Nada de mineirismos da fonte primária. Tudo a
ver com o cinema novo mais entusiasmado. Um filme-estandarte, repleto de conexões
com o Brasil comum aqui de fora da tela.
Tudo explode nela, uma parangolé em movimento
constante, como a lição de Diadorim para Riobaldo Tatarana: ao lutar, nunca
fique mais que um segundo no mesmo lugar. O filme luta, mexe-se, vai arrastando
na sua rede de imagens, palavras, situações e sociologias os retalhos do caos.
O Brasil dos escravizados, que gerou o Brasil dos
jagunços, que gerou o Brasil dos assaltantes, que gerou o Brasil dos traficantes,
que gerou o Brasil dos milicianos, que que que. E assim o filme salta da tela
pro lado de cá.
Acostumados que estamos à calmaria imóvel do streaming
que os olhos digerem com o Gastrol da preguiça, a gente até se incomoda na primeira
meia hora. Besteira. Só o tempo de cair na ciranda de Arraes, Furtado &
Dhalia, saltando o muro deste “Sertão” reconstruído em fórmula de fábula feroz.
Claro que lembrando, até a primeira meia hora, da
adaptação de Walter Avancini para a Globo em 1985. A televisão não permitia
ousadias como as desta nova versão. Aliás, já era milagroso que a televisão
acomodasse a mera adaptação comportada – e ela foi bem mais que isso.
Mas não tem paralelo. O berro em forma de cinema que
é o novo “Grande Sertão” recusa assentamentos de poeira. Quer mais é ver o
redemoinho arrastar tudo e todos. Nesse avoar, há perdas – não tem como.
A principal é Hermógenes, nosso Coronel Kurtz neste
coração das Minas. Ele é o nosso “o horror, o horror, o horror” – a criatura
que foi além de toda humanidade possível e se pareou com a essência do mal. Não
há como aniquilar da memória o Hermóneges de Tarcísio Meira – assustador só
com o olhar e raras palavras, presença
totalizante de uma entidade a emitir sua sombra imensa sobre o sertão sem fim.
No filme, Hermógenes cedeu à algaravia necessária –
e foi o prejudicado. O ator, Eduardo
Sterblitch, é sabidamente fera. Mas a direção pediu demais, desconfia o
espectador. O novo “Grande Sertão” entrega um Hermógenes hipertrofiado, quase
criatura digital importada do “Senhor dos Anéis”, tão além da conta que lhe
extrai a força. O excesso, aqui, paga seu preço.
Mas há compensações – uma em especial: o Zé Bebelo
de Luís Miranda surge e domina tudo, plantando sua figura múltipla no centro da
vereda exangue. Miranda insere trinta mil Zé Bebelos dentro da mesma pessoa – o
oportunista, o sedutor, o empático, o piadista, o bolsonarista, o populista, o
confiável, o indefensável, o inteligente e o instintivo – tudo dentro da mesma
pessoa. Como é possível? É, só. O triunfo do excesso bem conduzido. A súmula
dos excessos benfazejos do filme. Deus guarde Luís Miranda e seu Zé Bebelo,
retrato do Brasil.
Ao cinema, já.
