"Retratos Fantasmas", o filme, é um como um lambe-lambe de praça pública. Aciona a nostalgia. Machuca os corações de quem viu aquele outro Recife, o dos anos 80. Arremessa o espectador direto na máquina do tempo. Claro que não faz só isso - mas faz. E bem. Foi vendo o filme pela segunda vez que me brotou essa lista, como pé de flor teimosa no meio-fio da avenida Conde da Boa Vista. Tudo culpa da Livro 7 (foto). Tudo culpa do cinema. Tudo culpa da memória. Preciso pagar a conta e lá vai, uma lista saudosista de dez livros que comprei no ano de 1984 entre a rua da Imperatriz e as vizinhanças da lanchonete Cascatinha, das cercanias do São Luiz à rua do Hospício.
1. FELIZ ANO VELHO, de Marcelo Rubens Paiva - Era o campeão de vendas do ano, o renovador das letras, o documento político que apresentava a ditadura já demente à geração que havia acabado de deixar o ensino médio. Acabou de ter um relançamento comemorativo de aniversário de 40 anos, quem diria. Mas todo mundo já teve 18 anos um dia.
2. HENFIL NA CHINA, do próprio - Era um relato de viagem, porque já ali a China era motivo de muita curiosidade. Henfil era uma estrela na IstoÉ e no Jornal da Globo e ainda batia ponto de manhã na bodega de Marília Gabriela, a TV Mulher, com o TV Homem. Uma voz que traduzia o momento, com todas as contradições a quem todos, anônimos ou célebres, temos direito.
3. DIÁRIO DA CRISE, de Fernando Gabeira - É preciso retroceder com coragem, meu camarada. Este era outro Fernando Gabeira, pré-chá de cadeira dado por José Dirceu que o transformou numa estátua de sal de ressentimento e o resto todos sabemos. Vinha de uma série de sucessos editoriais que publicou a partir da volta do exílio. 1983 houvera sido um ano de profunda crise no país - seca, inflação, ditadura sem prestígio e sem dinheiro, por aí - e o farol do novo comportamento político que arejava bandeiras dava seus veredictos. Já sem causar tanto impacto quanto antes.
4. NÃO À RECESSÃO E AO DESEMPREGO, de Celso Furtado - Aqui se abre a ala dos economistas. Eles eram muito interessantes naquela época ao contestar as bases ortodoxas do regime e insuflar heterodoxia na agenda do dinheiro pátrio. Celso, monstro sagrado, batia-se contra o inimigo de dez entre dez brasileiros de uma classe média desencantada com os galardões dos generais: a receita do arrocho total para combater a carestia. Lançado no final do ano anterior, o 1983 de triste memória.
5. OS JUROS SUBVERSIVOS, de Joelmir Beting - Na mesma pisada do livro anterior. Outro dia Lula andou reclamando com o Simonsen da hora pelo mesmo motivo, e quando você consultou o relógio não era 84 mas quase 2024. Juro alto no Brasil é quase cláusula pétrea. E, sim, Joelmir era, mais que o tradutor dos mistérios do economês, um poeta da numerologia dos bancos e quebrantos. Faz muita falta.
6. BOMBA NO RIOCENTRO, organizado por Belisa Ribeiro - Um livro de momento, o tal instant book, que eu li com a avidez de quem consome hoje a Trilogia Napolitana ou a série nórdica Millenium (não confundir com instituições direitonas, faz favor). Sedento por informação política, era preciso ficar em dia com aquele passado que não acabava nunca. Aqui, Belisa, musa do telejornalismo de então, publicava pela Codecri - a editora do Pasquim, que definiu uma época - uma espécie de dossiê mostrando como os últimos extremistas da ditadura tentaram produzir o atentado no show do Dia do Trabalhador no Riocentro e falharam. E como, depois, trataram de jogar a culpa nos seus opositores. Fala a verdade, você acabou de ver esse filme de novo no tal 8 de janeiro, foi não?
7. LENNON, de Lúcia Vilares - A editora brasiliense era a preferida de quem tinha menos de 32 dentes. Com várias séries de livros, como essa Encanto Radical, com biografias de figuras do mundo pop-intelectual. A Veja na época chamou de "cultura como sorvete". Era bem isso e os sabores cada um melhor que o outro. Recomprei um exemplar recentemente e meu filho Bernardo leu com tanta gana que praticamente destruiu o exemplar. Agora, é dele - eu se quiser que compre outro, né legal?
8.ROCK, O GRITO E O MITO, de Roberto Muggiati - Um dos livros que mais apreciei na vida. Ensaio curto do jornalista que eu já conhecia pelos textos publicados na revista Manchete, Muggiati lhe fornecia um mapa para saber o mínimo do gênero musical e lhe garantir conhecimento caso fosse solicitado numa conversa casual. Recentemente reencontrei uma edição novinha e comprei de novo. Um autêntico tesouro da juventude.
9. 1984, de George Orwell - Pois é, o famigerado livro que virou o Pequeno Príncipe de tudo quanto é bolsominion ignorante teve uma onda de sucesso naquele distante... 1984. A coincidência do ano levou ao relançamento. Não, senhor, não havia no horizonte qualquer obsessão anticomunista como a que ocorre nesse espantoso hoje em dia; ao contrário, estávamos saindo da ditadura e ideias socialmente igualitárias eram muito bem vindas. Como todos, eu li e foi bom que o tenha feito então para saber do que se trata sem depender do ouvi-dizer, como desconfio que acontece hoje com muito ressentido.
10.COM LICENÇA EU VOU À LUTA, de Eliane Maciel - Outro campeão de vendas do momento. A garota da baixada fluminense cuspiu num livro-depoimento toda sua rejeição aos esquemas de vida de certa classe média baixa em que nascera, lançando um grito por mais liberdade, mais autonomia, menos padronização, num diálogo indireto com livros como o Feliz Ano Velho que abre esta lista. Prometia, a Eliane. O livro virou filme com Fernanda Torres fazendo Eliane. Mas até onde sei a escritora parou no livro seguinte, uma até onde lembro fantasia trópico-medievalista que eu também li e que não a levou adiante.




Nenhum comentário:
Postar um comentário