segunda-feira, 17 de junho de 2024

UM NOVO SERTÃO DE EXCESSOS

 


Um clássico de Guimarães Rosa, em um roteiro de Jorge Furtado, com direção de Guel Arraes e produção de Heitor Dhalia. Eis o tipo do filme que já chega alardeando: é tanto talento junto que ou vai dar muito certo ou totalmente errado. Por excesso, de tudo.

Respire, deu certo. Pra mim, ao menos. E com excessos, sim.

Excesso é o que não falta no “Grande Sertão” que os cinemas exibem – e veja no cinema, por caridade. É o tipo do filme feito pra isso, streaming é prático mas desperdiça luz, energia, alcance, brilho.

Cinema é no cinema, como disse Caetano Veloso na entrevista do último sábado à Folha de S. Paulo, a propósito de falar do livro que reúne textos sobre filmes escritos por ele na primeira juventude em Santo Amaro e outros excertos (“Cine Subaé”).

Voltando. O “Grande Sertão” de Arraes, Furtado & Dhalia é um excesso só. Bem do tipo que faz muita falta no audiovisual brasileiro atual. Nele, o filme, tudo é gritado, discursado, explodido ora em palavras, ora em cores saturadas, ora em cenografia sem paralelo.

Os atores não dizem uma fala com o naturalismo televisivo. Cada sílaba sai com a força de um monólogo glauberiano. Estamos em plena representação dionisíaca; este “Grande Sertão” é um banquete pantagruélico que nem aquele do “Macunaíma” de Joaquim Pedro. Como era excessivo o nosso cinema, como era bom. Lembrei de Gabriel Vilela, no teatro.

Mas o novo “Grande Sertão” está aí.  Nada de mineirismos da fonte primária. Tudo a ver com o cinema novo mais entusiasmado. Um filme-estandarte, repleto de conexões com o Brasil comum aqui de fora da tela.

Tudo explode nela, uma parangolé em movimento constante, como a lição de Diadorim para Riobaldo Tatarana: ao lutar, nunca fique mais que um segundo no mesmo lugar. O filme luta, mexe-se, vai arrastando na sua rede de imagens, palavras, situações e sociologias os retalhos do caos.

O Brasil dos escravizados, que gerou o Brasil dos jagunços, que gerou o Brasil dos assaltantes, que gerou o Brasil dos traficantes, que gerou o Brasil dos milicianos, que que que. E assim o filme salta da tela pro lado de cá.

Acostumados que estamos à calmaria imóvel do streaming que os olhos digerem com o Gastrol da preguiça, a gente até se incomoda na primeira meia hora. Besteira. Só o tempo de cair na ciranda de Arraes, Furtado & Dhalia, saltando o muro deste “Sertão” reconstruído em fórmula de fábula feroz.

Claro que lembrando, até a primeira meia hora, da adaptação de Walter Avancini para a Globo em 1985. A televisão não permitia ousadias como as desta nova versão. Aliás, já era milagroso que a televisão acomodasse a mera adaptação comportada – e ela foi bem mais que isso.

Mas não tem paralelo. O berro em forma de cinema que é o novo “Grande Sertão” recusa assentamentos de poeira. Quer mais é ver o redemoinho arrastar tudo e todos. Nesse avoar, há perdas – não tem como.

A principal é Hermógenes, nosso Coronel Kurtz neste coração das Minas. Ele é o nosso “o horror, o horror, o horror” – a criatura que foi além de toda humanidade possível e se pareou com a essência do mal. Não há como aniquilar da memória o Hermóneges de Tarcísio Meira – assustador só com  o olhar e raras palavras, presença totalizante de uma entidade a emitir sua sombra imensa sobre o sertão sem fim.

No filme, Hermógenes cedeu à algaravia necessária – e foi o prejudicado.  O ator, Eduardo Sterblitch, é sabidamente fera. Mas a direção pediu demais, desconfia o espectador. O novo “Grande Sertão” entrega um Hermógenes hipertrofiado, quase criatura digital importada do “Senhor dos Anéis”, tão além da conta que lhe extrai a força. O excesso, aqui, paga seu preço.

Mas há compensações – uma em especial: o Zé Bebelo de Luís Miranda surge e domina tudo, plantando sua figura múltipla no centro da vereda exangue. Miranda insere trinta mil Zé Bebelos dentro da mesma pessoa – o oportunista, o sedutor, o empático, o piadista, o bolsonarista, o populista, o confiável, o indefensável, o inteligente e o instintivo – tudo dentro da mesma pessoa. Como é possível? É, só. O triunfo do excesso bem conduzido. A súmula dos excessos benfazejos do filme. Deus guarde Luís Miranda e seu Zé Bebelo, retrato do Brasil.

Ao cinema, já.

domingo, 3 de março de 2024

A NOVA ENCARNAÇÃO DE TRAVIS


Travis, o andarilho do far west pop-existencialista de 1984, trocou as pradarias do coração da América pelo cotidiano pós-urbano de uma Tóquio cheia de desfiladeiros em forma de  prédios e vias elevadas. Jane, a mulher que ele não conseguia amar dentro dos limites do sentimento de posse e insegurança, ficou para trás, cuidando do filho Hunter, o loirinho cuja existência de oito anos ligava todos os pontos do sempre marcante "Paris, Texas". 

Harry Dean Steaton, o ator, morreu em setembro de 2007, mas está plenamente reencarnado na figura de Hirayama que, representado pelo ator Koji Yakusho, não deixa espaço para mais nada na tela de "Dias Perfeitos", a nova incursão do alemão Wim Wenders na complicada geografia interna de seres humanos carimbados para sempre por um evento traumático.

Pois então, é como se o Travis do outro filme reaparecesse agora, exatos 40 anos depois, na rotina deste Hirayama, de "Dias Perfeitos". Difícil não assistir às inúmeras cenas do japonês conduzindo sua viatura operacional com que exerce seu trabalho de limpeza dos banheiros públicos da metrópole oriental sem lembrar das também inúmeras imagens dos personagens de "Paris, Texas" nas rodovias americanas, entre o deserto e Los Angeles, ora um carro alugado ora uma camionete comprada de segunda mão - todos motorizados na tarefa de reconstruir o que o destino fez desabar, tanto em termos de casa, família e trabalho quanto - e principalmente - em se falando da arquitetura interna que nos sustenta a cada um de nós. 

Em "Dias Perfeitos", esse passado fragmentado com um espelho em cacos é apenas e eficientemente sugerido. O filme não quer falar dos acontecimento em si, do choque como tal, mas sim sobre a maneira como um evento pode gerar um novo padrão de comportamento futuro, gerar uma personalidade refeita como é possível e, no caso em questão, fazendo aflorar uma nova sensibilidade para o que há de mais simples, efêmero, natural e singelamente belo numa vida, sobretudo a mais comum e humilde das vidas. 

"Paris, Texas", o filme "americano" de Wenders, esmerava-se em, durante uma longa e sensível marcha de reconstrução, tirar dos olhos do espectador a venda até meio suave - como a deste  novo filme também - que recobria a história da quebra dos elos entre Trevis, Jane e Hunter, a pretexto de mostrar o que, para Wenders, era a natureza mais contundente do modo de vida norte-americano. O roteiro de Sam Shepard é, todos sabemos, brilhante em ir narrando, ponto a ponto, etapa a etapa, no tempo tão à parte que o filme tem e com que nos envolve, o que ocorreu para gerar aquela imagem do andarilho no deserto, companheiro mudo das águas espetaculares do país que é o império da mudança e do movimento (vide "América", a não menos brilhantes série documental dos anos 1980 que João Moreira Salles escreveu pra o irmão Walter dirigir para a então TV Manchete). 




Repare, se você lembra de "Paris, Texas", nas várias cenas feitas sobre uma ponte  em "Dias Perfeitos" - essa quase explícita metáfora visual de ligação entre vidas, pessoas e sentimentos isolados - e o quanto elas conversam em termos cinematográficos com aquela passarela gigante do filme de 1984, que Travis atravessava ao som do sermão apocalíptico de um pastor insano. Parece que no filme dos anos 80 a passarela mais dificultava o contato do que unia o que quer que seja. No filme atual, as bicicletas circulam com suavidade sobre o asfalto das pontes, estabelecendo novas religações que a história de Trevis não permitia. A angústia persiste, mas Wenders parece mais aberto às progressões agora. Ele continua falando sobre cidades, grandes cidades e suas solidões de concreto e de carne e osso, mas agora há sinais de uma inflexão rumo a alguma esperança. 

Para retomar o diálogo entre os dois filmes, em "Dias Perfeitos", interessa menos a recuperação do trauma e mais a vivência do pós-trauma. E quando os sinais dessa fratura aparecem é bem possível que espectadores menos acostumados à caneta de Wenders e mais dados a certa visão cartesiana do cinema queiram saber logo o que aconteceu. Não saberão e, sendo este tipo de público, jamais vão se conformar - por não entender que estão colocando o burro na frente da carroça e o capim que move o burro antes de tudo. Wenders agora se dedica a outra investigação, muito própria do universo zen-budista da locação escolhida, ainda que não seja nada fácil filtrar esse tipo de sensibilidade num oriente hoje tão conectado àquela mesma visão higt tech -finacista e tudo o que ela gera. 

Claro que não precisa conhecer "Paris, Texas" para gostar de "Dias Perfeitos", mas quem, como eu e tanta gente que conheço, já perdeu a conta das vezes que parou para rever o filme com a absolutamente inesquecível trilha sonora de Ry Cooder, é quase impossível não fazer a conexão. A mim espanta muito que os novos críticos convertidos ao YouTube  não o tenham feito. Hirayama e Travis são irmãos e de uma forma muito particular, quando notamos que o segundo tornou-se um avanço da personalidade torturada que era o outro, ainda que a dor - essa constante no cinema ou fora dele - não possa ser extinta de todo, com se vê na linda, límpida, leve e ao mesmo tempo profunda  cena final do novo filme de Wim Wenders. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

GRAÇA, PÚBLICO

 

 

Quando penso em Graciliano Ramos o associo imediatamente a uma tarde quente numa biblioteca municipal. Adolescente numa pequena cidade sem livrarias, dependente desses valiosos acervos públicos para construir uma rota de leitura meio incerta mas também determinada, me vali, entre outros, do escritor alagoano cujos textos eram fáceis de encontrar nas prateleiras, assim como Jorge Amado, José Lins do Rego e outros da mesma linha de tempo e lugar. Até hoje, confundo “Angústia” com “Caetés”, duas das narrativas urbanas do autor que foi notabilizado pela tragédia social que reproduziu em “Vidas Secas”, o mais célebre dos seus livros, por desde então estar obrigatoriamente nas listas dos secundaristas às voltas com o fantasma do vestibular, naquela época bem mais assombroso que o Enem dos tempos atuais.

As editoras começam a se mexer porque  a obra de Graciliano está entrando em domínio público, o que facilita a reedição – todo tipo de reedição, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Democratiza, claro, multiplica o acesso, mas também há aventureiros até na seara do mercado editorial, sabemos. Há pouco tempo, voltei a Graciliano. Ano passado. Peguei “Angústia” e “Caetés” – este numa edição mais recente, da Record, de muito bom gosto, e o primeiro num exemplar de sebo, já calejado pelos olhos de outros leitores. E não consegui esclarecer uma dessas dúvidas que a gente leva vida afora quando tenta refazer aquelas rotas de leitura a que me referi acima: não sei se li ou reli “Caetés” – e digo o mesmo sobre “Angústia”. Sei que li um dos dois na adolescência, naturalmente achando muito seco, quente e áspero, com pessoas soturnas, mentes solapadas, rotinas irrespiráveis, vidas secas não no sentido geográfico do adjetivo.

Obviamente eu não tinha idade para entender, absorver e me beneficiar intelectualmente e humanamente daquelas pessoas, naquelas cidades – um dos livros se passa em Maceió e outro numa localidade do interior alagoano. Nos dois casos, os protagonistas eram homens frustrados em suas ambições, tendo que lidar com o rame-rame sem expectativa dos burgos e também das outras almas baças ao seu redor. Isso era demais para um estudante que se deleitava com a verdura sexual, social e ambiental das tramas de Jorge Amado, ou com a doçura subliminar das terras onde se dava a decadência da aristocracia rural açucareira de um José Lins do Rêgo. Mas eu sempre fui de insistir, desde cedo.  Só não sei se o que li foi “Angústia” ou “Caetés”. Ao voltar – ou encarar – tais livros no ano passado, tão obviamente quanto não estava pronto para eles décadas atrás, vi-me deslumbrado com sua textura dramática enxuta, direta e forte sem exageros. Graciliano não é pra crianças e nem mesmo para adolescentes pretensiosos.

Eu voltaria a Graciliano no decorrer dos anos. Na idade universitária, seu  “Memórias do Cárcere” em dois alentados volumes foi uma vitória e tanto no desbravar de textos longos e documentais, sobretudo porque foi lido numa sequência de “Olga”, de Fernando Morais, recém-lançado na época, “O Cavaleiro da Esperança”, a biografia festiva que Jorge Amado fez para saudar Luiz Carlos Prestes, e outros títulos da minha iniciação ao mundo da interpretação que a esquerda literária construía do Brasil.

Mas ainda não era o retorno ideal, a descoberta acachapante, do tipo que liga definitivamente leitor e escritor. Isso só veio numa temporada quente – o calor é inerente a Graciliano, não consigo fugir disso – já morando em Brasília, quando peguei uma edição recente de “São Bernardo”. Como diz o titulo de um excelente livro de outro escritor, foi aí que tudo se iluminou. Pra mim está ali a essência mais depurada de Graciliano, sua busca por desenhar com precisão e sem excessos a realidade nordestino-brasileira usando poucos mais expressivos recursos. Se algum dia formos definir quem é o brasileiro por natureza – sem julgamentos morais apressados, é importante que se diga – a partir de grandes personagens da nossa literatura, Paulo Honório será uma de nossas cinco melhores traduções, pode apostar. Avaro, miserável no sentido econômico e humano, sem empatia quando se trata de preservar o interesse próprio, mas ao mesmo tempo determinado, cerebral e... empreendedor, sim senhor. Estamos ali, um pouco ou um muito.

A memória já gasta me sopra: o incômodo que me vinha ao ler Graciliano no sertão seridoense era uma identificação inesperada. Ocorre que o ato de ler, pra mim, assim como o de assistir a filmes no Cine Rex, apontava para algum tipo de evasão, distanciamento da minha realidade de todos os dias, fuga para as montanhas no bom sentido da expressão. E a vida dos personagens de Graciliano era suportar cidades ou bairros (no caso de Maceió) onde a vida era pequena, os dias tórridos, a geografia restritiva quando eu sonhava com o oposto – as matas baianas, os tabuleiros pernambucanos, a exuberância aquática dos brejos distantes. Se possível, a floresta africana – porque a Amazônia brasileira, naquele tempo, acredite, era trata como “inferno verde” e me dava só medo. E o acesso a tudo isso só era possível de três formas: lendo livros, assistindo à televisão ou indo ao cinema.

Graciliano hoje, à distância, com o benefício que a racionalidade e a experiência conferem, é a quintessência da noção que já naquela época eu tinha do que é um escritor. De verdade. Não essa profusão de escritores ocasionais que as facilidades do hoje em dia geram às pencas e onde se salvam pouquíssimos. Graciliano me soava já então – e hoje isso é a consolidação do olhar com que o vejo – como um homem solitário que vale por uma multidão, reflexivo sem ser exibido, ligeiramente atormentado pelas mazelas da espécie e do que ela faz com o mundo ao redor, que despeja tudo isso com maestria e sem carnaval em blocos de folhas pautadas que se tornarão livros obrigatórios – e, ao seu modo, deliciosos. Só não dá pra gente se livrar do calor em volta, sobretudo agora que o aquecimento global resolveu deixar de ser ameaça pra se tornar presença.

 

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Um "Vestido de Noiva" novinho em folha



Pingou uma chance de assistir a uma montagem de "Vestido de Noiva", o texto já clássico de Nelson Rodrigues que promoveu uma curva no teatro brasileiro ao propor uma encenação baseada em três planos:

Memória, delírio e realidade. 

Quem leu a já também clássica biografia de Ruy Castro para Nelson, "O Anjo Pornográfico", sabe do impacto da montagem original.

Sabe da dificuldade de montar o texto lá nos idos de 1943. Ziembski fez a montagem inicial. 

Tem a parte do escândalo verdadeiro ou pra consumo externo, num outro Brasil - se bem que, a gente sabe, o Brasil nem sempre evolui o quanto a gente imagina (a propósito, reveja outro clássico, "Cabra Marcado pra Morrer", de Eduardo Coutinho, e note o quanto o bolsoburrismo trouxe de volta coisas que se julgava tão superadas, fim do parênteses).

Pois um grupo de Belo Horizonte está tendo a ousadia de remontar "Vestido de Noiva". Em cartaz no CCBB de Brasília. 

Coragem de mamar em onça, com se diz.

Fomos ver e soou mais corajoso ainda, mesmo que fazendo uma opção cênica meio... conservadora.

Calma que explico: a montagem opta por uma narração em off, apoiada em um subtexto em video (talvez por isso o grupo se chame Oficcina Multimédia, assim mesmo com acento no "mé"), que explica, traduz, facilita o tempo todo o entendimento do texto.

Eu achava, sempre achei (e eu não sou um tampa mas aqui tá implícito que eu li o texto original, li sim), que a graça suprema de "Vestido de Noiva" era o espectador se perder no emaranhado de memória, delírio e realidade. Que explicar isso logo na primeira cena do espetáculo era um supremo sacrilégio, capaz de comprometer a montagem inteira.

Pois eles fizeram justo isso. 

Eu tô em dúvida até agora sobre o efeito, mas a proposta é essa - corajosa ou não? Gosto que haja uma proposta, a gente precisa estar aberto pra ver no que vai dar, abraçar e medir, abalizar. Ruim é ficar parado, só admirando o mito.

Funciona na medida em que aquele telão com a narração, as explicações, os quase comentários, funcionam como uma ilustração a mais da divisão dos planos. Além da memória, realidade e delírio, tem os planos dos vários espaços - reais ou eletrônicos - em que a encenação se dá. Planos formais.

O resultado é uma montagem de extrema agilidade. 

Verdade que também me chateia um pouco um certo cacoete do teatro atual (pelo menos do pouco que eu vejo), essa mania de ficar arrastando objetos de cena como mesas ou cadeiras o tempo inteiro. Há pouco tempo vi também no CCBB-Brasília um ótimo musical sobre Carmem Miranda que tinha essa mesma mania, os atores ficaram o tempo inteiro empurrando letras gigantes no palco. 

Mas, no geral, esse "Vestido" não pára quieto. E isso, claro, deixa menos arrastado o texto original, dá um colorido - um colorido não, um certo tom de sépia pop, digamos assim -  ao mundo sombrio do velho Nelson. Não sei se ele gostaria disso, mas. 

Em momentos mais exagerados, chega a parecer um desenho animado. Alaíde-Papa Léguas, sim, mas é uma proposta - e isso é soa mais importante.

Também tem uma ótima sacada: a duplicação das intérpretes de Alaíde, a moça que vai casar e é atropelada, dando início à maratona delírio-memória-realidade que serve de eixo ao texto e às suas encenações. 

Duplicada a interpretação, já se abrem novos planos internos no texto que estimula este tipo de ousadia, se é que ousadia ainda é uma palavra válida hoje em dia. 

Vão ver, se puderem. Nâo se sabe quanto haverá outra chance. 

*Quer saber mais e ter uma visão diferente? Leia o que diz a diretora numa reportagem do jornal O Globo: https://oglobo.globo.com/cultura/teatro/noticia/2023/10/11/vestido-de-noiva-ganha-nova-montagem-nelson-rodrigues-se-revelou-precursor-ao-mostrar-a-mulher-que-busca-a-liberdade-diz-diretora.ghtml




segunda-feira, 11 de setembro de 2023

O CINEMA, O BOLOR E A CORAGEM


Isso vem de "Aquarius". Todo mundo estava acostumado a um cinema certinho, exato, até brilhante dramática e tecnicamente mas, ora ora, orgânico demais. Quem não reverencia "Central do Brasil"? Ou "O Auto da Compadecida" que vai ter uma sequencia em breve? Tá certo. Correto. Mas a questão bem que pode ser essa - a correção, que satisfaz, mas limita. 

Desconfio que Kleber Mendonça Filho chega com aquele ar convencido inerente aos pernambucanos para mexer justamente aí. O cinema dele não se contenta em ser certinho, obedecer aos ditames do roteiro, da luz, da direção de atores, enfim, das boas regras do riscado. 

Os filmes de Kleber Mendonça Filho deixam entrar o que aparentemente pode desorganizar tudo. Espicha situações, insulta a  paleta, entra em quartos que um filme convencional evita. "O som ao redor" abusa dos recortes de tempos, estabelece silêncios, aceita pausas, expõe paralisias. Ou então se arrisca pintando de sangue as águas de uma cachoeira agrestina. Estuda situações, cutuca desconfianças, não esconde soluços e engasgos - estrebucha se for o caso.

"Bacurau" reescreve o sertão, sem se agarrar praticamente a nenhum modelo anterior - apenas se apropria do que ali já era natural, violência à parte. Mas a violência - que perfila o poder externo e extremo e dita a invisibilidade de quem deseja fazer sumir - é acrescida à não-receita sem dó nem inverdade. Ela precisa estar presente e revoar no ar que nem poeira de redemoinho. Chove sangue sobre o mato verde do inverno mais recente - e daí? Daí que brotam pés de verdade no chão jamais adubado. 

"Aquarius" pega a especulação imobiliária, o assédio praticado pelo poder econômico, as esquina da idade para uma mulher urbana, a necessidade desesperadora da memória e junta tudo num filme que abre avenidas narrativas sem medo de se perder no roteiro ensaístico-sentimental. Com Kleber Mendonça Filho, pode. Tá liberado. 

Ocorre a você algum produto do supercine nacional que arrisque - pelo menos, tanto assim - a botar o pé fora do quadrado da convenção, ainda que seja a convenção mais cultuada? Talve no Luiz Fernando Carvalho de "Lavoura Arcaica" - academicismos à parte já que, no cinema ou na televisão, este é um diretor muito mais formalista. Nesta comparação, Kleber Mendonça Filho soa como o cúmulo da espontaneidade. E "Retratos Fantasmas" traz para o documentário literário essa corajosa permissividade. 

No novo filme, Kleber Mendonça vai como que puxando o fio de uma conversa comprida, dessas de tio velho que odeia o zap e aprecia mesmo é um bom boteco. Como quem não quer nada vai lhe levando nesse passeio sobre o que aquele senhor tão bonito - o tempo - fez e faz, apronta e presepeia. O tempo parece ser o protagonista de "Retratos". O dinheiro e suas rotas imprevisíveis, o vilão. 

O apartamento, o centro do Recife, os cinemas e as igrejas evangélicas, que dividem o filme como quem separa os cômodos de um velho casarão, são os instrumentos. 

João Moreira Sales, numa a esta altura antiga série documental a que eu e meus amigos de então assistíamos embasbacados, "América", na TV Manchete, dizia a certa altura que a decadência é caprichosa - ela cuida dos detalhes. 

Foi ver as manchas de bolor em praticamente todos os elementos de cada cena de "Retratos Fantasmas" e lembrar da força invisível, mas incontestável do mofo que o irmão de Walter Sales destacava. Essa matéria suja está nas imagens mas também na estrutura, no propósito e na linguagem à parte que os filmes de Kleber Mendonça Filho se permitem. 

Os mortos falam, diz um clichê bem gasto. "Retratos Falados" comprova, mais uma vez. 

E mais uma vez Kleber Mendonça Filho assina sua diferença no cinema brasileiro. 

Não é pouco fazer filmes que já nascem clássicos. 

Em casos assim, tem que prestar atenção nos motivos. 

UM FILME, DEZ LIVROS



"Retratos Fantasmas", o filme, é um como um lambe-lambe de praça pública. Aciona a nostalgia. Machuca os corações de quem viu aquele outro Recife, o dos anos 80. Arremessa o espectador direto na máquina do tempo. Claro que não faz só isso - mas faz. E bem. Foi vendo o filme pela segunda vez que me brotou essa lista, como pé de flor teimosa no meio-fio da avenida Conde da Boa Vista. Tudo culpa da Livro 7 (foto). Tudo culpa do cinema. Tudo culpa da memória. Preciso pagar a conta e lá vai, uma lista saudosista de dez livros que comprei no ano de 1984 entre a rua da Imperatriz e as vizinhanças da lanchonete Cascatinha, das cercanias do São Luiz à rua do Hospício. 


1. FELIZ ANO VELHO, de Marcelo Rubens Paiva - Era o campeão de vendas do ano, o renovador das letras, o documento político que apresentava a ditadura já demente à geração que havia acabado de deixar o ensino médio. Acabou de ter um relançamento comemorativo de aniversário de 40 anos, quem diria. Mas todo mundo já teve 18 anos um dia.


2. HENFIL NA CHINA, do próprio - Era um relato de viagem, porque já ali a China era motivo de muita curiosidade. Henfil era uma estrela na IstoÉ e no Jornal da Globo e ainda batia ponto de manhã na bodega de Marília Gabriela, a TV Mulher, com o TV Homem. Uma voz que traduzia o momento, com todas as contradições a quem todos, anônimos ou célebres, temos direito.


3. DIÁRIO DA CRISE, de Fernando Gabeira - É preciso retroceder com coragem, meu camarada. Este era outro Fernando Gabeira, pré-chá de cadeira dado por José Dirceu que o transformou numa estátua de sal de ressentimento e o resto todos sabemos. Vinha de uma série de sucessos editoriais que publicou a partir da volta do exílio. 1983 houvera sido um ano de profunda crise no país - seca, inflação, ditadura sem prestígio e sem dinheiro, por aí - e o farol do novo comportamento político que arejava bandeiras dava seus veredictos. Já sem causar tanto impacto quanto antes. 



4. NÃO À RECESSÃO E AO DESEMPREGO, de Celso Furtado - Aqui se abre a ala dos economistas. Eles eram muito interessantes naquela época ao contestar as bases ortodoxas do regime e insuflar heterodoxia na agenda do dinheiro pátrio. Celso, monstro sagrado, batia-se contra o inimigo de dez entre dez brasileiros de uma classe média desencantada com os galardões dos generais: a receita do arrocho total para combater a carestia. Lançado no final do ano anterior, o 1983 de triste memória.


5. OS JUROS SUBVERSIVOS, de Joelmir Beting - Na mesma pisada do livro anterior. Outro dia Lula andou reclamando com o Simonsen da hora pelo mesmo motivo, e quando você consultou o relógio não era 84 mas quase 2024. Juro alto no Brasil é quase cláusula pétrea. E, sim, Joelmir era, mais que o tradutor dos mistérios do economês, um poeta da numerologia dos bancos e quebrantos. Faz muita falta. 


6. BOMBA NO RIOCENTRO, organizado por Belisa Ribeiro - Um livro de momento, o tal instant book, que eu li com a avidez de quem consome hoje a Trilogia Napolitana ou a série nórdica Millenium (não confundir com instituições direitonas, faz favor). Sedento por informação política, era preciso ficar em dia com aquele passado que não acabava nunca. Aqui, Belisa, musa do telejornalismo de então, publicava pela Codecri - a  editora do Pasquim, que definiu uma época - uma espécie de dossiê mostrando como os últimos extremistas da ditadura tentaram produzir o atentado no show do Dia do Trabalhador no Riocentro e falharam. E como, depois, trataram de jogar a culpa nos seus opositores. Fala a verdade, você acabou de ver esse filme de novo no tal 8 de janeiro, foi não?


7. LENNON, de Lúcia Vilares - A editora brasiliense era a preferida de quem tinha menos de 32 dentes. Com várias séries de livros, como essa Encanto Radical, com biografias de figuras do mundo pop-intelectual. A Veja na época chamou de "cultura como sorvete". Era bem isso e os sabores cada um melhor que o outro. Recomprei um exemplar recentemente e meu filho Bernardo leu com tanta gana que praticamente destruiu o exemplar. Agora, é dele - eu se quiser que compre outro, né legal?



8.ROCK, O GRITO E O MITO, de Roberto Muggiati - Um dos livros que mais apreciei na vida. Ensaio curto do jornalista que eu já conhecia pelos textos publicados na revista Manchete, Muggiati lhe fornecia um mapa para saber o mínimo do gênero musical e lhe garantir conhecimento caso fosse solicitado numa conversa casual. Recentemente reencontrei uma edição novinha e comprei de novo. Um autêntico tesouro da juventude.


9. 1984, de George Orwell - Pois é, o famigerado livro que virou o Pequeno Príncipe de tudo quanto é bolsominion ignorante teve uma onda de sucesso naquele  distante... 1984. A coincidência do ano levou ao relançamento. Não, senhor, não havia no horizonte qualquer obsessão anticomunista como a que ocorre nesse espantoso hoje em dia; ao contrário, estávamos saindo da ditadura e ideias socialmente igualitárias eram muito bem vindas. Como todos, eu li e foi bom que o tenha feito então para saber do que se trata sem depender do ouvi-dizer, como desconfio que acontece hoje com muito ressentido. 


10.COM LICENÇA EU VOU À LUTA, de Eliane Maciel - Outro campeão de vendas do momento. A garota da baixada fluminense cuspiu num livro-depoimento toda sua rejeição aos esquemas de vida de certa classe média baixa em que nascera, lançando um grito por mais liberdade, mais autonomia, menos padronização, num diálogo indireto com livros como o Feliz Ano Velho que abre esta lista. Prometia, a Eliane. O livro virou filme com Fernanda Torres fazendo Eliane. Mas até onde sei a escritora parou no livro seguinte, uma até onde lembro fantasia trópico-medievalista que eu também li e que não a levou adiante. 



quinta-feira, 7 de setembro de 2023

TUDO BEM COM VOCÊ?


Parecia um complô, do bem. No dia em que minha filha Cecília teve sua primeira aula no curso de Comunicação em Audiovisual da UnB, um momento muito esperado por ela e por todos aquele que brinco chamando de "família bagunçada, ou Fbag", fomos juntos ao Cine Brasília - um lugar que eu sempre quis que ela frequentasse. O Cine Brasília é como uma mulher de fases: ora tá aberto, ora fechado, às vezes funciona mas meio largado, depende sempre do interesse por cinema, por arte, por parte de quem está mandando no governo do Distrito Federal. 

Pois agora, agora mesmo, demos sorte: o Cine Brasília tá numa fase das melhores. Busque a conta deles no Instagram e você poderá perceber o que digo aqui. Pois bem, no dia do primeiro dia de aulas deste segundo semestre na UnB, estreou também um projeto do curso de Cecília - a retomada do projeto, na verdade, depois da interrupção durante a pandemia - chamado Cine Beijoca, que reexibe no Cine Brasília, aquele colosso de tela que temos o privilégio de ainda ter na cidade, filmes marcantes do cinema brasileiro, seguido de um debate com quem estiver disposto a comentar. 

Eu não sabia de nada disso até Cecília passar por mim em casa toda arrumada perguntando se eu ia. Eu ia pra onde? Pro Cine Brasília. O que tem lá hoje? O Cine Beijoca, ora. Imaginei de cara uma dessas festas universitárias turbinadas que movimentam o campus da UnB e matam de raiva os bolsominions de Brasília que se ajoelham aos pés de Bia Kicis e similares. Retomando: O que é esse Cine Beijoca? Ah, uma mostra de filmes brasileiros que estão fora de cartaz pros alunos da UnB mas que todo mundo pode ver. Beleza, legal, interessante. E qual é o filme de hoje? Cecília pegou um papelzinho pra consultar e me surpreendeu: era Tudo Bem, que Arnaldo Jabor, muito antes da fase globoantipetista com que infelizmente é mais lembrado depois de morto, lançou em 1978, com Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e os então infantes Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães, além, claro, da grandiosa Zezé Motta - que por sinal protagoniza a melhor cena do filme e aquela pela qual ele é lembrado até hoje (e olhe que a concorrência é pesada, há muitas ótimas sequências em Tudo Bem).

O filme, se fosse realista, funcionaria hoje um documentário involuntário sobre a classe média carioca dos anos 70. Era essa mais ou menos a minha expectativa quando Cecilia me disse o que iria passar no Cine Brasília. Eu havia visto Tudo Bem apenas em fita de  VHS há muitos anos mas lembrava muito bem do que se tratava: uma amostra grátis do Brasil médio - ao menos o Brasil do sudeste, é preciso lembrar - a partir de uma crônica feita com cenas que mais parecem esquetes do dia-a-dia de uma família na cidade do Rio de Janeiro durante as obras no apartamento onde mora. 

Isso é o resumo da opereta. Nas mãos de Jabor, o que temos uma daquelas ótimas carnavalizações da realidade brasileira, numa sucessão de cenas que a mim lembrou muito um desfile de escola de samba. Temos a comissão de frente (a cena em que o pai de família Gracindo escreve, com a ajuda de seus fantasmas mais caros, cartas a um jornal), temos evoluções de passistas gostosas (a empregada Zezé Motta seminua tocando fogo na cozinha e corredores puxando um samba com cabo de vassoura e bandeira de pano de prato), temos a grande apoteose na última sequencia (quando Paulo Cesar Pereio comanda um festivo discurso na algaravia do apartamento cheio para comemorar nem se sabe bem o que mesmo). Tudo isso numa progressão análoga à passagem de alas e mais alas numa Marquês de Sapucaí de celulóide. O filme tem ainda uma ironia fina que, infelizmente, por assim dizer não se usa mais: a última imagem traz as cataratas do Iguaçu (ou seria Sete Quedas? não importa, vale o efeito) ao som de uma dessas composições de Villa Lobos, um escracho com o Brasil grande já à deriva naquele distante 1978. 

Depois de rever Tudo Bem, fiquei pensando o que seria daquela família nesta segunda década dos anos 2000. Paulo Grancindo e Fernanda, o casal, certamente teriam entrado para as fileiras do bolsonarismo zona sul do Rio com panelas e bandeiras. As cartas do leitor seriam substituídas por troca de fake news nas bolhas formadas pelas redes fanáticas da internet facista. Gracindo estava fadado a se tornar um daqueles manjados tios do zap. A mal comportada filha Regina talvez tivesse trocado o lar-doce-lar de Copacabana por alguma das cracolândias do eixo Rio-SP. E o mauricinho pro-mercado de Luiz Fernando Guimarães nem no Brasil estaria mais - poderia se converter num desses bloqueiros bolsonaristas que se refugiam nos zéua tremendo de medo de um mandado de prisão expedido por um tal de Alexandre impensável naqueles tempos.

Tudo bem. E Tudo Bem, o filme, segue, à sua maneira, bem atual com seu jeito de chanchada irônica, sua anti-encenação que faz do exagero dos atores um grito da nova-velha realidade que evoca a era dos generais do Rio ao Rio Grande do Sul. 

Vejamos o que o Cine Beijoca traz pra gente nas próximas edições, toda última sexta-feira do mês no Cine Brasília. 


UM NOVO SERTÃO DE EXCESSOS

  Um clássico de Guimarães Rosa, em um roteiro de Jorge Furtado, com direção de Guel Arraes e produção de Heitor Dhalia. Eis o tipo do filme...