Travis, o andarilho do far west pop-existencialista de 1984, trocou as pradarias do coração da América pelo cotidiano pós-urbano de uma Tóquio cheia de desfiladeiros em forma de prédios e vias elevadas. Jane, a mulher que ele não conseguia amar dentro dos limites do sentimento de posse e insegurança, ficou para trás, cuidando do filho Hunter, o loirinho cuja existência de oito anos ligava todos os pontos do sempre marcante "Paris, Texas".
Harry Dean Steaton, o ator, morreu em setembro de 2007, mas está plenamente reencarnado na figura de Hirayama que, representado pelo ator Koji Yakusho, não deixa espaço para mais nada na tela de "Dias Perfeitos", a nova incursão do alemão Wim Wenders na complicada geografia interna de seres humanos carimbados para sempre por um evento traumático.
Pois então, é como se o Travis do outro filme reaparecesse agora, exatos 40 anos depois, na rotina deste Hirayama, de "Dias Perfeitos". Difícil não assistir às inúmeras cenas do japonês conduzindo sua viatura operacional com que exerce seu trabalho de limpeza dos banheiros públicos da metrópole oriental sem lembrar das também inúmeras imagens dos personagens de "Paris, Texas" nas rodovias americanas, entre o deserto e Los Angeles, ora um carro alugado ora uma camionete comprada de segunda mão - todos motorizados na tarefa de reconstruir o que o destino fez desabar, tanto em termos de casa, família e trabalho quanto - e principalmente - em se falando da arquitetura interna que nos sustenta a cada um de nós.
Em "Dias Perfeitos", esse passado fragmentado com um espelho em cacos é apenas e eficientemente sugerido. O filme não quer falar dos acontecimento em si, do choque como tal, mas sim sobre a maneira como um evento pode gerar um novo padrão de comportamento futuro, gerar uma personalidade refeita como é possível e, no caso em questão, fazendo aflorar uma nova sensibilidade para o que há de mais simples, efêmero, natural e singelamente belo numa vida, sobretudo a mais comum e humilde das vidas.
"Paris, Texas", o filme "americano" de Wenders, esmerava-se em, durante uma longa e sensível marcha de reconstrução, tirar dos olhos do espectador a venda até meio suave - como a deste novo filme também - que recobria a história da quebra dos elos entre Trevis, Jane e Hunter, a pretexto de mostrar o que, para Wenders, era a natureza mais contundente do modo de vida norte-americano. O roteiro de Sam Shepard é, todos sabemos, brilhante em ir narrando, ponto a ponto, etapa a etapa, no tempo tão à parte que o filme tem e com que nos envolve, o que ocorreu para gerar aquela imagem do andarilho no deserto, companheiro mudo das águas espetaculares do país que é o império da mudança e do movimento (vide "América", a não menos brilhantes série documental dos anos 1980 que João Moreira Salles escreveu pra o irmão Walter dirigir para a então TV Manchete).
Repare, se você lembra de "Paris, Texas", nas várias cenas feitas sobre uma ponte em "Dias Perfeitos" - essa quase explícita metáfora visual de ligação entre vidas, pessoas e sentimentos isolados - e o quanto elas conversam em termos cinematográficos com aquela passarela gigante do filme de 1984, que Travis atravessava ao som do sermão apocalíptico de um pastor insano. Parece que no filme dos anos 80 a passarela mais dificultava o contato do que unia o que quer que seja. No filme atual, as bicicletas circulam com suavidade sobre o asfalto das pontes, estabelecendo novas religações que a história de Trevis não permitia. A angústia persiste, mas Wenders parece mais aberto às progressões agora. Ele continua falando sobre cidades, grandes cidades e suas solidões de concreto e de carne e osso, mas agora há sinais de uma inflexão rumo a alguma esperança.
Para retomar o diálogo entre os dois filmes, em "Dias Perfeitos", interessa menos a recuperação do trauma e mais a vivência do pós-trauma. E quando os sinais dessa fratura aparecem é bem possível que espectadores menos acostumados à caneta de Wenders e mais dados a certa visão cartesiana do cinema queiram saber logo o que aconteceu. Não saberão e, sendo este tipo de público, jamais vão se conformar - por não entender que estão colocando o burro na frente da carroça e o capim que move o burro antes de tudo. Wenders agora se dedica a outra investigação, muito própria do universo zen-budista da locação escolhida, ainda que não seja nada fácil filtrar esse tipo de sensibilidade num oriente hoje tão conectado àquela mesma visão higt tech -finacista e tudo o que ela gera.
Claro que não precisa conhecer "Paris, Texas" para gostar de "Dias Perfeitos", mas quem, como eu e tanta gente que conheço, já perdeu a conta das vezes que parou para rever o filme com a absolutamente inesquecível trilha sonora de Ry Cooder, é quase impossível não fazer a conexão. A mim espanta muito que os novos críticos convertidos ao YouTube não o tenham feito. Hirayama e Travis são irmãos e de uma forma muito particular, quando notamos que o segundo tornou-se um avanço da personalidade torturada que era o outro, ainda que a dor - essa constante no cinema ou fora dele - não possa ser extinta de todo, com se vê na linda, límpida, leve e ao mesmo tempo profunda cena final do novo filme de Wim Wenders.

