Quando penso em Graciliano Ramos o associo imediatamente a uma tarde quente numa biblioteca municipal. Adolescente numa pequena cidade sem livrarias, dependente desses valiosos acervos públicos para construir uma rota de leitura meio incerta mas também determinada, me vali, entre outros, do escritor alagoano cujos textos eram fáceis de encontrar nas prateleiras, assim como Jorge Amado, José Lins do Rego e outros da mesma linha de tempo e lugar. Até hoje, confundo “Angústia” com “Caetés”, duas das narrativas urbanas do autor que foi notabilizado pela tragédia social que reproduziu em “Vidas Secas”, o mais célebre dos seus livros, por desde então estar obrigatoriamente nas listas dos secundaristas às voltas com o fantasma do vestibular, naquela época bem mais assombroso que o Enem dos tempos atuais.
As editoras começam a se mexer porque a obra de Graciliano está entrando em domínio
público, o que facilita a reedição – todo tipo de reedição, o que é bom e ruim
ao mesmo tempo. Democratiza, claro, multiplica o acesso, mas também há
aventureiros até na seara do mercado editorial, sabemos. Há pouco tempo, voltei
a Graciliano. Ano passado. Peguei “Angústia” e “Caetés” – este numa edição mais
recente, da Record, de muito bom gosto, e o primeiro num exemplar de sebo, já
calejado pelos olhos de outros leitores. E não consegui esclarecer uma dessas
dúvidas que a gente leva vida afora quando tenta refazer aquelas rotas de
leitura a que me referi acima: não sei se li ou reli “Caetés” – e digo o mesmo
sobre “Angústia”. Sei que li um dos dois na adolescência, naturalmente achando
muito seco, quente e áspero, com pessoas soturnas, mentes solapadas, rotinas
irrespiráveis, vidas secas não no sentido geográfico do adjetivo.
Obviamente eu não tinha idade para entender,
absorver e me beneficiar intelectualmente e humanamente daquelas pessoas,
naquelas cidades – um dos livros se passa em Maceió e outro numa localidade do
interior alagoano. Nos dois casos, os protagonistas eram homens frustrados em
suas ambições, tendo que lidar com o rame-rame sem expectativa dos burgos e
também das outras almas baças ao seu redor. Isso era demais para um estudante
que se deleitava com a verdura sexual, social e ambiental das tramas de Jorge
Amado, ou com a doçura subliminar das terras onde se dava a decadência da aristocracia
rural açucareira de um José Lins do Rêgo. Mas eu sempre fui de insistir, desde
cedo. Só não sei se o que li foi “Angústia”
ou “Caetés”. Ao voltar – ou encarar – tais livros no ano passado, tão
obviamente quanto não estava pronto para eles décadas atrás, vi-me deslumbrado
com sua textura dramática enxuta, direta e forte sem exageros. Graciliano não é
pra crianças e nem mesmo para adolescentes pretensiosos.
Eu voltaria a Graciliano no decorrer dos anos. Na
idade universitária, seu “Memórias do
Cárcere” em dois alentados volumes foi uma vitória e tanto no desbravar de
textos longos e documentais, sobretudo porque foi lido numa sequência de “Olga”,
de Fernando Morais, recém-lançado na época, “O Cavaleiro da Esperança”, a
biografia festiva que Jorge Amado fez para saudar Luiz Carlos Prestes, e outros
títulos da minha iniciação ao mundo da interpretação que a esquerda literária
construía do Brasil.
Mas ainda não era o retorno ideal, a descoberta
acachapante, do tipo que liga definitivamente leitor e escritor. Isso só veio
numa temporada quente – o calor é inerente a Graciliano, não consigo fugir
disso – já morando em Brasília, quando peguei uma edição recente de “São
Bernardo”. Como diz o titulo de um excelente livro de outro escritor, foi aí
que tudo se iluminou. Pra mim está ali a essência mais depurada de Graciliano,
sua busca por desenhar com precisão e sem excessos a realidade
nordestino-brasileira usando poucos mais expressivos recursos. Se algum dia
formos definir quem é o brasileiro por natureza – sem julgamentos morais
apressados, é importante que se diga – a partir de grandes personagens da nossa
literatura, Paulo Honório será uma de nossas cinco melhores traduções, pode
apostar. Avaro, miserável no sentido econômico e humano, sem empatia quando se
trata de preservar o interesse próprio, mas ao mesmo tempo determinado,
cerebral e... empreendedor, sim senhor. Estamos ali, um pouco ou um muito.
A memória já gasta me sopra: o incômodo que me vinha
ao ler Graciliano no sertão seridoense era uma identificação inesperada. Ocorre
que o ato de ler, pra mim, assim como o de assistir a filmes no Cine Rex, apontava
para algum tipo de evasão, distanciamento da minha realidade de todos os dias,
fuga para as montanhas no bom sentido da expressão. E a vida dos personagens de
Graciliano era suportar cidades ou bairros (no caso de Maceió) onde a vida era
pequena, os dias tórridos, a geografia restritiva quando eu sonhava com o oposto
– as matas baianas, os tabuleiros pernambucanos, a exuberância aquática dos
brejos distantes. Se possível, a floresta africana – porque a Amazônia
brasileira, naquele tempo, acredite, era trata como “inferno verde” e me dava
só medo. E o acesso a tudo isso só era possível de três formas: lendo livros,
assistindo à televisão ou indo ao cinema.
Graciliano hoje, à distância, com o benefício que a
racionalidade e a experiência conferem, é a quintessência da noção que já
naquela época eu tinha do que é um escritor. De verdade. Não essa profusão de
escritores ocasionais que as facilidades do hoje em dia geram às pencas e onde
se salvam pouquíssimos. Graciliano me soava já então – e hoje isso é a
consolidação do olhar com que o vejo – como um homem solitário que vale por uma
multidão, reflexivo sem ser exibido, ligeiramente atormentado pelas mazelas da
espécie e do que ela faz com o mundo ao redor, que despeja tudo isso com
maestria e sem carnaval em blocos de folhas pautadas que se tornarão livros
obrigatórios – e, ao seu modo, deliciosos. Só não dá pra gente se livrar do
calor em volta, sobretudo agora que o aquecimento global resolveu deixar de ser
ameaça pra se tornar presença.