Se você tem pelo menos uns 40 anos de idade, pense nos seus “livros de adolescente”: certamente, aposto, “Capitães de areia”, “O Cortiço”, “Éramos Seis”, “Ana Terra” e títulos afins. “Nada de novo no front” foi um dos meus principais, numa época em que foi lançado em edição popular dentro de uma série simpática da editora Abril. É, desde sempre, o marcante e eficiente libelo pacifista ao expor, em literatura acessível a quem tem pouca idade e está apenas começando a viver, toda a brutalidade de guerras totais como as que marcaram o período 1918-1944, com aquele intervalo de paz agoniada entre elas.
Há não muito tempo reli, mas quem já passou dos 50 anos sabe que nem sempre a retenção da memória segue o mesmo ritmo do avanço da idade. Antes, ocorre o contrário – de maneira que guardo pouco do que li e reli, além da suficiente lembrança geral desse painel de bestialidade que denuncia a que ponto o desejo de poder absoluto pode levar o ser humano, as grandes guerras mundiais.
Outro elemento que o livro me entregou foi, num interstício entre batalhas ferozes, trincheiras infectas e generais plenos de soberba assassina, a consciência de outra fraqueza humana menos espetaculosa mas igualmente fomentada por ocorrências como as guerras mais sangrentas: a dificuldade de, após passar por um evento traumático por longos períodos, se adquirir novamente algum sabor em vivenciar a existência comum, normal, caseira e comunitária anterior a essa terrível circunstância.
É o que ocorre com o narrador do livro, escrito por um
ex-soldado alemão que esteve por três vezes na frente de batalhas e encontrou
nessa escrita um desaguadouro da profunda estupefação que de lá trouxe, a ponto
de vê-la convertida naquele tipo de angústia que imprimiu na história do seu
personagem. Sim, o soldado que saiu da adolescência direto para a lama, o caldo
de sangue e de dejetos das trincheiras para descobrir que, num breve intervalo
afastado de tal inferno, no conforto de um lar reencontrado, não consegue se
interessar por absolutamente mais nada. Seja por culpa, hábito ou absoluta
dependência de uma forma muito particular de adrenalina, ele descobre que tudo
o que deseja é voltar para o armagedon de onde por tanto tempo esperou se ver
livre.
Falando em memória, tanto tenho lapsos quanto uma forma estranha de amnésia que, no lugar de apagar, acrescenta blocos de lembranças de elementos que de fato não existiram – embora sejam sempre bem coerentes com o painel geral da matéria em recordação. Por exemplo: durante anos acreditei que no filme “Deus e o diabo na terra do sol”, o clássico cinemanovista de Glauber Rocha, havia uma cena em que o vaqueiro Manuel, despojado de tudo o que o identifica e lhe vale a vida, é levado a substituir, num ritual, a cruz que tem nas mãos dadas pelo beato Sebastião (personagem do filme que evoca Antônio Conselheiro) por um punhal como o que os cangaceiros usavam. Seria a representação perfeita daquele momento em que o sertanejo desvalido troca o fanatismo religioso que lhe restou pela violência não menos ritual do cangaço. Pois essa cena não existe no filme real, só no filme da minha cabeça – e olhe que assisti a “Deus e o diabo” numa tela imensa, projetado numa sessão especial no Teatro do Parque, em Recife, no ano da graça de 1984.
Essa explicação atrasa o relato mas pode ser importante porque guardo nessa memória apócrifa que elabora o que não existiu a impressão de que no livro de Erich Maria Remarque existe esse período em que o personagem de fato volta pra casa. Não garanto nada, mas dito isso posso agora sim chegar no que pretendia desde o início, umas poucas considerações sobre “Nada de novo no front”, o filme que faz sucesso desde que lançado na plataforma de streaming Netflix.
Acabei de ver, tão bestificado quanto nas épocas em
que li e reli o livro. Minto, bem mais. Não tem como ser menos ou igual – e aqui
reside a minha surpresa com o filme. O gênero de guerra já rendeu tanto, tem
uma variedade tal de abordagens, realizações, coberturas do que representa um
conflito bélico, seja regional, mundial, localizado ou sintomático do que somos
como seres humanos que surpreende mesmo um novo título ser feito e ainda causar
algum impacto.
Pois em mim causou: raras vezes assisti a um filme desse
gênero com tamanha carga de realismo técnico e dramático, expondo a guerra como
ela é para a geração que assiste a tudo no conforto de sua sala equipada com
home theater, na fofura do seu sofá gigante, onde o consumo de produções desse
tipo tende a ter outras circunstâncias para compensar a imersão da tela em uma
sala convencional de exibição. Visualmente, a nova versão em filme desse livro
clássico vai além das convenções do gênero de guerra e parece salpicar
cuidadosamente em cada fotograma, cada plano geral que parece ter sido milimetricamente
estudado antes de as câmeras serem ligadas, um elemento indescritível que
mistura ora uma luz algo cremosa ora detalhes inseridos com precisão expressiva
– como um galho seco contra um céu de ocaso pós-batalha que lhe transporta automaticamente
para aquele mundo em desagregação. Não se pode chamar de belo um filme com tamanha
carga de violência realista, mas me compreendam quando anoto que esteticamente
há um apuro e uma sensibilidade que se não faz tudo parecer menos brutal,
denota um sentido de composição estética à altura do drama filmado e lhe
confere um status elevado em termos de expressividade e clamor visual.
Nas sequencias que ilustram o absurdo final que é uma
guerra como essa, onde soldados saídos dos bancos escolares tornam-se bestas inumanas
lutando entre si como animais desesperados – num brado visual pacifista a que
ninguém consegue ficar indiferente – emergem dramas que, sozinhos, já dariam
conta desse triste recado. Como o segmento em que o soldado se debate numa poça
de lama típica de frentes de batalha, uma depressão tomada por água imunda e
nota um combatente inimigo na outra margem dessa mesma poça fétida. Na lógica
da guerra de sobrevivência, atravessa a vala e consegue deter o adversário,
apunhalando-o seguidas vezes diretamente no peito. Pensa que resolveu seu embate
imediato mas aquela pequena temporada no inferno está apenas começando, porque
o inimigo, além de não morrer prontamente ou virar de imediato mais um entre
milhares de cadáveres, passa a estrebuchar com uma série de engulhos que lhe
sacode o corpo e o faz emitir os mais pavorosos e incômodos sons da morte ali
ao lado.
É uma excelente ideia encarar “Nada de novo no front” como uma espécie de gatilho – com ironia e tudo – do resto de pacifismo que nos restou nesses tempos de rinhas virtuais nas redes planetárias. Essas outras guerras potenciais que destilam ódio e provocação entre bolhas, ou na vizinhança ou ainda, o que é pior e infelizmente acontece, dentro das nossas próprias famílias.



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