segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

PEQUENOS EMBATES, GRANDES CONFRONTOS


 

“Os Banshees de Inisherin” não é um filme “de guerra”. Mas é. Sem precisar mostrar exércitos, trincheiras ou baionetas. Estruturado como uma parábola coalhada pela presença de animais fabulosos ao lado de humanos reduzidos à sua essência, o filme expõe batalhas invisíveis que se dão dentro das pessoas. Por fora, tudo é placidez – a começar pela paisagem insular da locação da história. Por dentro, pequenos cataclismos. O poder figurativo do filme mora aí, no bombardeiro de sugestões, na falsa mansidão das alegorias.

A guerra civil irlandesa ocorre ao longe e só chega aos ilhados do filme como clarões ou sombras da sempre recorrível caverna de Platão. Mas está longe de ser só reflexo. Na plateia do filme, assistimos à distância – assim como seus personagens ouvem o barulho das bombas – à formação desse imperativo dos conflitos humanos. Aquele que pode começar com o simples fim de uma longa amizade e evoluir (!) até um enfrentamento bélico.

O filme, aberto como a ilha diante dos ventos do continente, parece esperar qualquer interpretação a partir do início simples que mostra um velho amigo encerrando a relação com outro sem dar motivos. Os elementos subsequentes têm essa característica indefinida, como a distante luz de um farol envolto em névoa. Mas sinalizam o bastante para cada espectador, como no tão diverso e distante “2001 – Uma odisseia no Espaço”, construir suas próprias teias teóricas.

O amigo que um belo dia se vê presa da busca de uma transcendência por meio da música rejeita o que passa a considerar seu não-igual, ou um ex-igual – sujeito pacato capaz de entreter a existência com conversas casuais no bar. Aqui já é outro imperativo – o da superioridade – minando os relacionamentos. Aqui já desponta também outra diretriz, não menos discreta, o de certa inocência que pode redundar numa forma diversa de alcançar aquela mesma transcendência, por que não?

O filme parece dizer que os grandes embates podem nascer desses pequenos e aparentemente invisíveis desajustes. Falta entendimento, sobra expectativa. As bombas além do mar comentam, com a sutileza que só elas podem ter. Há outros elementos, claro, que emolduram e contornam mas sem nunca deixar tudo mais figurativo. Podem ser inclusive elementos brutais, quase bíblicos, como dedos cortados e fogo ateado. Ingredientes das parábolas mais pungentes, como se vê.

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