“Os Banshees de Inisherin” não é um filme “de guerra”. Mas é. Sem precisar mostrar exércitos, trincheiras ou baionetas. Estruturado como uma parábola coalhada pela presença de animais fabulosos ao lado de humanos reduzidos à sua essência, o filme expõe batalhas invisíveis que se dão dentro das pessoas. Por fora, tudo é placidez – a começar pela paisagem insular da locação da história. Por dentro, pequenos cataclismos. O poder figurativo do filme mora aí, no bombardeiro de sugestões, na falsa mansidão das alegorias.
A guerra civil irlandesa ocorre
ao longe e só chega aos ilhados do filme como clarões ou sombras da sempre
recorrível caverna de Platão. Mas está longe de ser só reflexo. Na plateia do
filme, assistimos à distância – assim como seus personagens ouvem o barulho das
bombas – à formação desse imperativo dos conflitos humanos. Aquele que pode
começar com o simples fim de uma longa amizade e evoluir (!) até um
enfrentamento bélico.
O filme, aberto como a ilha
diante dos ventos do continente, parece esperar qualquer interpretação a partir
do início simples que mostra um velho amigo encerrando a relação com outro sem
dar motivos. Os elementos subsequentes têm essa característica indefinida, como
a distante luz de um farol envolto em névoa. Mas sinalizam o bastante para cada
espectador, como no tão diverso e distante “2001 – Uma odisseia no Espaço”,
construir suas próprias teias teóricas.
O amigo que um belo dia se vê
presa da busca de uma transcendência por meio da música rejeita o que passa a
considerar seu não-igual, ou um ex-igual – sujeito pacato capaz de entreter a
existência com conversas casuais no bar. Aqui já é outro imperativo – o da
superioridade – minando os relacionamentos. Aqui já desponta também outra
diretriz, não menos discreta, o de certa inocência que pode redundar numa forma
diversa de alcançar aquela mesma transcendência, por que não?
O filme parece dizer que os grandes embates podem nascer desses pequenos e aparentemente invisíveis desajustes. Falta entendimento, sobra expectativa. As bombas além do mar comentam, com a sutileza que só elas podem ter. Há outros elementos, claro, que emolduram e contornam mas sem nunca deixar tudo mais figurativo. Podem ser inclusive elementos brutais, quase bíblicos, como dedos cortados e fogo ateado. Ingredientes das parábolas mais pungentes, como se vê.

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