Parecia um complô, do bem. No dia em que minha filha Cecília teve sua primeira aula no curso de Comunicação em Audiovisual da UnB, um momento muito esperado por ela e por todos aquele que brinco chamando de "família bagunçada, ou Fbag", fomos juntos ao Cine Brasília - um lugar que eu sempre quis que ela frequentasse. O Cine Brasília é como uma mulher de fases: ora tá aberto, ora fechado, às vezes funciona mas meio largado, depende sempre do interesse por cinema, por arte, por parte de quem está mandando no governo do Distrito Federal.
Pois agora, agora mesmo, demos sorte: o Cine Brasília tá numa fase das melhores. Busque a conta deles no Instagram e você poderá perceber o que digo aqui. Pois bem, no dia do primeiro dia de aulas deste segundo semestre na UnB, estreou também um projeto do curso de Cecília - a retomada do projeto, na verdade, depois da interrupção durante a pandemia - chamado Cine Beijoca, que reexibe no Cine Brasília, aquele colosso de tela que temos o privilégio de ainda ter na cidade, filmes marcantes do cinema brasileiro, seguido de um debate com quem estiver disposto a comentar.
Eu não sabia de nada disso até Cecília passar por mim em casa toda arrumada perguntando se eu ia. Eu ia pra onde? Pro Cine Brasília. O que tem lá hoje? O Cine Beijoca, ora. Imaginei de cara uma dessas festas universitárias turbinadas que movimentam o campus da UnB e matam de raiva os bolsominions de Brasília que se ajoelham aos pés de Bia Kicis e similares. Retomando: O que é esse Cine Beijoca? Ah, uma mostra de filmes brasileiros que estão fora de cartaz pros alunos da UnB mas que todo mundo pode ver. Beleza, legal, interessante. E qual é o filme de hoje? Cecília pegou um papelzinho pra consultar e me surpreendeu: era Tudo Bem, que Arnaldo Jabor, muito antes da fase globoantipetista com que infelizmente é mais lembrado depois de morto, lançou em 1978, com Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e os então infantes Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães, além, claro, da grandiosa Zezé Motta - que por sinal protagoniza a melhor cena do filme e aquela pela qual ele é lembrado até hoje (e olhe que a concorrência é pesada, há muitas ótimas sequências em Tudo Bem).
O filme, se fosse realista, funcionaria hoje um documentário involuntário sobre a classe média carioca dos anos 70. Era essa mais ou menos a minha expectativa quando Cecilia me disse o que iria passar no Cine Brasília. Eu havia visto Tudo Bem apenas em fita de VHS há muitos anos mas lembrava muito bem do que se tratava: uma amostra grátis do Brasil médio - ao menos o Brasil do sudeste, é preciso lembrar - a partir de uma crônica feita com cenas que mais parecem esquetes do dia-a-dia de uma família na cidade do Rio de Janeiro durante as obras no apartamento onde mora.
Isso é o resumo da opereta. Nas mãos de Jabor, o que temos uma daquelas ótimas carnavalizações da realidade brasileira, numa sucessão de cenas que a mim lembrou muito um desfile de escola de samba. Temos a comissão de frente (a cena em que o pai de família Gracindo escreve, com a ajuda de seus fantasmas mais caros, cartas a um jornal), temos evoluções de passistas gostosas (a empregada Zezé Motta seminua tocando fogo na cozinha e corredores puxando um samba com cabo de vassoura e bandeira de pano de prato), temos a grande apoteose na última sequencia (quando Paulo Cesar Pereio comanda um festivo discurso na algaravia do apartamento cheio para comemorar nem se sabe bem o que mesmo). Tudo isso numa progressão análoga à passagem de alas e mais alas numa Marquês de Sapucaí de celulóide. O filme tem ainda uma ironia fina que, infelizmente, por assim dizer não se usa mais: a última imagem traz as cataratas do Iguaçu (ou seria Sete Quedas? não importa, vale o efeito) ao som de uma dessas composições de Villa Lobos, um escracho com o Brasil grande já à deriva naquele distante 1978.
Depois de rever Tudo Bem, fiquei pensando o que seria daquela família nesta segunda década dos anos 2000. Paulo Grancindo e Fernanda, o casal, certamente teriam entrado para as fileiras do bolsonarismo zona sul do Rio com panelas e bandeiras. As cartas do leitor seriam substituídas por troca de fake news nas bolhas formadas pelas redes fanáticas da internet facista. Gracindo estava fadado a se tornar um daqueles manjados tios do zap. A mal comportada filha Regina talvez tivesse trocado o lar-doce-lar de Copacabana por alguma das cracolândias do eixo Rio-SP. E o mauricinho pro-mercado de Luiz Fernando Guimarães nem no Brasil estaria mais - poderia se converter num desses bloqueiros bolsonaristas que se refugiam nos zéua tremendo de medo de um mandado de prisão expedido por um tal de Alexandre impensável naqueles tempos.
Tudo bem. E Tudo Bem, o filme, segue, à sua maneira, bem atual com seu jeito de chanchada irônica, sua anti-encenação que faz do exagero dos atores um grito da nova-velha realidade que evoca a era dos generais do Rio ao Rio Grande do Sul.
Vejamos o que o Cine Beijoca traz pra gente nas próximas edições, toda última sexta-feira do mês no Cine Brasília.

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