Por mais que a gente – eu, você, Mariana Monteiro e todo mundo que não consegue ficar mais de 30 dias sem entrar numa sala de cinema – goste de Helen Mirren, dessa vez foi demais. Em “Golda”, o filme que mostra a tensão que a então primeira-ministra israelense enfrentou durante os dias da Guerra do Yom Kippu, em 1973, com toda aquela carga de dramaticidade que hoje, vistos de longe, parecem ter tido todos os acontecimentos políticos e militares daquela década, a câmera, o diretor, o sonoplasta, o cenógrafo, todos, todos, todos parecem não se distanciar nunca mais de 30 centímetros das fuças da atriz britânica.
Pra efeito de comparação, nem no igualmente tenso “O
informante”, petardo de 1999 dirigido por Michael Mann, um filme colou tanto no
pescoço do seu protagonista. Nesse outro, quanto mais tenso Russell Crowe ficava,
mais o filme, e a gente do lado de cá, escalava o cangote do ator australiano. O
recurso acentua ainda mais a ansiedade de personagens como aquele – o químico
que, enfrentando muita pressão, abriu para o mundo o funcionamento da máquina
de dependência dos cigarros comuns.
Mas nesse outro filme – que entrou aqui pra ajudar, não
pra dispersar o assunto – havia toda uma circunstância que dava um respiro pra
gente e pras fuças de Crowe. No caso da reconstrução cinematográfica de dona
Golda Meir, né bem assim não. O fotógrafo enquadra o rosto dela e lá fica – sai
um pouco, ok, mas é um quase nada quando se faz a contagem da impressão final
dos planos e quadros. Frequentemente, sai para ficar onde está, como quando
mostra a primeira-ministra em um panorama que não tem mais nada, só o vazio do
céu ou de uma parede, quando muito um murinho baixo. Vez por outra sua
assistente onipresente que, ironicamente, parece reforçar ainda mais a
superexposição de Helen Mirren. Haja solidão – e é preciso admitir que os
acontecimentos em volta justificam essa tensa proximidade. Mas o motivo não
supera o cansaço pra quem está do lado de cá da tela.
Os acontecimentos em volta, eles mesmos só comparecem
indiretamente. É forte, impactante, mas nunca vamos de fato à frente de
combate. Claro que entramos na sala de exibição esperando muito mais um drama
sobre o poder político do que um “filme de guerra”. Ainda assim, umas poucas
cenas do tipo videogame da futura Guerra do Golfo parecem pouco. E não adianta
espernear, que aqui a opção do cineasta impõe-se a qualquer ansiedade do seu
público. A guerra do Yom Kippu vem a nós por meio apenas do que chega aos
olhos, aos ouvidos e à mente desafiada de Golda/Helen – ou seja, ao grande close
totalizador que quase nunca o filme abandona.
Sons, ruídos, flashes ultrarrápidos, tudo isso cruza o
panorama do rosto da atriz. Rosto que se converte em uma espécie de caverna de
Platão por onde chegam os reflexos do mundo real. As expressões de Helen Mirren
acabam sendo o narrador oculto do que se passa na tela. O episódio desta guerra
é apenas um dos complexos elementos que fazem parte do quebra-cabeça que
configura a formação e a consolidação do estado de Israel. Mas você terá que
deduzir tudo a partir dos diálogos em gabinetes governamentais ou trancado
nesta sala esfumaçada que é a mente visível de Golda Meir exibida pelo filme.
Muita gente prefere não saber nada sobre um filme antes
de vê-lo. Eu sou do time que aprecia um prefácio. No caso de “Golda”, sei não,
mas arrisco que uma wikipedia ligeira fará grande diferença. O mais é soprar da
mente a Elizabeth turrona que Mirren fez brilhantemente no muito mais
deglutível “A Rainha” e fazer um teste de resistência nessa nova encarnação da
atriz.

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