quinta-feira, 7 de setembro de 2023

BREAKING BAD FROM SERIDÓ

 


Não foi apenas a premissa semelhante que me fez linkar de cara a série Cangaço Novo, do Prime Video, com o a esta altura já velho Breaking Bad, da HBO. Além do ponto de partida do cara que envereda pelo caminho da criminalidade – algo meio só aparentemente soft no caso de Walter White mas abertamente violento quando do protagonista do Cangaço – em circunstância que soa natural e inevitável, houve as sequencias de abertura de cada episódio.

Essas cenas iniciais, captadas em branco e preto e claramente destacadas da narrativa que vem à frente, levando a história para trás em flashes ultrabemcuidados, recorre a um recurso do Breaking Bad, com a diferença que lá o miniepisódio inicial podia ser uma pista do que viria à frente, ou lateralmente – era algo menos claro do que vemos no Cangaço, mais pra uma insinuação, algo intrigante que o espectaddor precisava encaixar de alguma maneira no que viria a seguir.

O link se estabeleceu de imediato, antes mesmo de aparecer o sujeito que leva a história pra frente com sua carga de injustiça particular. Pra quem perdeu Breaking Bad (comeu essa mosca? Vá atrás), tínhamos um professor de química desempregado e acossado por um câncer no país onde saúde custa cada célula do corpo em dinheiro vivo. Restava a ele usar os conhecimentos da matéria pra fabricar poderosas anfetaminas e cair nas malhas das redes do tráfico. Bem perto do caso do ex-bancário e militar igualmente sem ocupação e com uma conta milionária para sustentar o pai adotivo internado numa UTI paulistana que dá de cara com uma quadrilha de assaltantes de bancos no poeirão das pequenas cidades do Ceará e arredores.

Mas as semelhanças certamente param por aí – estou apenas no terceiro ou quarto episódio. Tudo bem que o Novo México da série americana muitas vezes lembra, pela aridez da natureza em volta, os desertos do nosso Seridó, potiguar ou paraibano, que servem de cenário ao Cangaço. Parelhas seria o nosso Albuquerque? Claro que não, são apenas diálogos imaginártios e naturais a  quem consome muito audiovisual. Um parênteses pra anotar que, se a divisão das unidades da federação brasileiras não tivessem seguido tanto o mapa das capitanias hereditárias, o Seridó seria um estado, como a Bahia ou Sergipe – porque culturalmente é um capítulo à parte, homogêneo e bem diverso, por exemplo, do oeste potiguar, ficando muito mais aparentado de uma parte da Paraíba. Fim do parênteses.

Mas é curioso que a série gringa tinha um estouro de luz e cor, explosões de púrpuras e amarelos que Cangaço Novo evita, ao adotar uma pastelização visual imagino que para dar um pouco de sobriedade a situações de tamanha violência. O Seridó de Cangaço parece sempre nublado – o que, quem conhece a região sabe, é bem raro por lá – enquanto a quentura saturada da série da HBO talvez reforçe um calor que era preciso turbinar, afinal ali estávamos entre famílias de classe média que mal sentiam a vizinhança disfarçada de quadrilhas de traficantes mexicanizados.



Ambas são ótimos exercídios de audiovisual fora das caixas saturadas que nos foram entregues por anos. O elenco de Cangaço quase que totalmente mais próximo desse interior confere uma autenticidade que um Selton Mello, por melhor que seja, jamais seria capaz. Mais Alice Carvalho e menos Débora Bloch é a pedida do momento – e demorou, sem demérito para nossa para sempre Beth Balanço. O que se perde em estrelado se ganha em verdade dramática. Importante é certo cuidado pra não glamourizar essa forma de marginalidade que, sim, vem se tornando comum no interior de todo o Nordeste brasileiro. Os ataques às cidades – que até onde sei se dão a noite alta, pela madrugada, quando todos dormem em pequenas e médias cidades – causam susto apavorante. A própria Parelhas, minha cidade de origem e que serve de locação para parte da série, passou por isso. Noite de medo e apreensão absoluta sob o luar daquele belo Boqueirão que serve de fundo para diálogos entre Hermilla Guedes e Allan Souza Lima.
 

A série, que ainda não acabei de ver, relembro, precisa ter esse distanciamento para não inspirar levas de novos cangaceiros (lembrai-vos do fenômeno britânico após a estreia de Laranja Mecânica que levou Stanley Kubrick a tirar o filme de cartaz, sim, senhor). Claro, a arte dramática, como quase todas, lida com a beleza e a feiúra do mundo, vai direto no que incomoda, o que não tem respostas prontas, o que machuca, o que gera interrogações. Cangaço Novo se infiltra nas nossas contradições regionais para ir construindo o retrato desse novo e triste fenômeno social que, à sua maneira, atualiza também – eu disse também, porque este não pode ser o único ângulo de visão – nossos conflitos históricos e muitas vezes calados à força. Parece que os nativos tapuias não morrem nunca, estão impregnados em cada seridoense como eu desde os massacres da Guerra dos Bárbaros. Basta provocar.

Pelo Cangaço Novo, a série, e pela outra da HBO, vê-se o quanto é fácil enveredar pelo braking bad de cada um. Reconhecendo, fica mais fácil resistir – espera-se.  

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