Não foi apenas a premissa semelhante que me fez linkar de cara a série Cangaço Novo, do Prime Video, com o a esta altura já velho Breaking Bad, da HBO. Além do ponto de partida do cara que envereda pelo caminho da criminalidade – algo meio só aparentemente soft no caso de Walter White mas abertamente violento quando do protagonista do Cangaço – em circunstância que soa natural e inevitável, houve as sequencias de abertura de cada episódio.
Essas cenas iniciais, captadas em branco e preto e
claramente destacadas da narrativa que vem à frente, levando a história para
trás em flashes ultrabemcuidados, recorre a um recurso do Breaking Bad, com a
diferença que lá o miniepisódio inicial podia ser uma pista do que viria à
frente, ou lateralmente – era algo menos claro do que vemos no Cangaço, mais
pra uma insinuação, algo intrigante que o espectaddor precisava encaixar de alguma
maneira no que viria a seguir.
O link se estabeleceu de imediato, antes mesmo de
aparecer o sujeito que leva a história pra frente com sua carga de injustiça
particular. Pra quem perdeu Breaking Bad (comeu essa mosca? Vá atrás), tínhamos
um professor de química desempregado e acossado por um câncer no país onde
saúde custa cada célula do corpo em dinheiro vivo. Restava a ele usar os conhecimentos
da matéria pra fabricar poderosas anfetaminas e cair nas malhas das redes do
tráfico. Bem perto do caso do ex-bancário e militar igualmente sem ocupação e
com uma conta milionária para sustentar o pai adotivo internado numa UTI
paulistana que dá de cara com uma quadrilha de assaltantes de bancos no poeirão
das pequenas cidades do Ceará e arredores.
Mas as semelhanças certamente param por aí – estou apenas
no terceiro ou quarto episódio. Tudo bem que o Novo México da série americana
muitas vezes lembra, pela aridez da natureza em volta, os desertos do nosso Seridó,
potiguar ou paraibano, que servem de cenário ao Cangaço. Parelhas seria o nosso
Albuquerque? Claro que não, são apenas diálogos imaginártios e naturais a quem consome muito audiovisual. Um parênteses
pra anotar que, se a divisão das unidades da federação brasileiras não tivessem
seguido tanto o mapa das capitanias hereditárias, o Seridó seria um estado,
como a Bahia ou Sergipe – porque culturalmente é um capítulo à parte, homogêneo
e bem diverso, por exemplo, do oeste potiguar, ficando muito mais aparentado de
uma parte da Paraíba. Fim do parênteses.
Mas é curioso que a série gringa tinha um estouro de
luz e cor, explosões de púrpuras e amarelos que Cangaço Novo evita, ao adotar
uma pastelização visual imagino que para dar um pouco de sobriedade a situações
de tamanha violência. O Seridó de Cangaço parece sempre nublado – o que, quem
conhece a região sabe, é bem raro por lá – enquanto a quentura saturada da
série da HBO talvez reforçe um calor que era preciso turbinar, afinal ali estávamos
entre famílias de classe média que mal sentiam a vizinhança disfarçada de
quadrilhas de traficantes mexicanizados.
A série, que ainda não acabei de ver, relembro,
precisa ter esse distanciamento para não inspirar levas de novos cangaceiros
(lembrai-vos do fenômeno britânico após a estreia de Laranja Mecânica que levou
Stanley Kubrick a tirar o filme de cartaz, sim, senhor). Claro, a arte dramática,
como quase todas, lida com a beleza e a feiúra do mundo, vai direto no que
incomoda, o que não tem respostas prontas, o que machuca, o que gera
interrogações. Cangaço Novo se infiltra nas nossas contradições regionais para
ir construindo o retrato desse novo e triste fenômeno social que, à sua
maneira, atualiza também – eu disse também, porque este não pode ser o único
ângulo de visão – nossos conflitos históricos e muitas vezes calados à força. Parece
que os nativos tapuias não morrem nunca, estão impregnados em cada seridoense
como eu desde os massacres da Guerra dos Bárbaros. Basta provocar.
Pelo Cangaço Novo, a série, e pela outra da HBO, vê-se
o quanto é fácil enveredar pelo braking bad de cada um. Reconhecendo, fica mais
fácil resistir – espera-se.


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