sexta-feira, 11 de agosto de 2023

CLÁSSICOS À DERIVA



Conexões entre "Dom Quixote", Papa Léguas, Tony Soprano e outros anti-herói nos mares das histórias contadas e recontadas

Na pandemia, cada um arrumou um lugar pra ficar, como desse, como pudesse. Passado esse tempo desde o fim de 2022, o período iniciado em março de 2020 começa a se desenhar na memória de forma mais clara. Da subjetividade confusa daquele período vai emergindo aos poucos a consciência do que foi atravessar aqueles longos meses. E fica evidente que vivemos uma distopia temporária – um negócio que parece ter sido imaginado, como num livro, mortes à parte, dores contadas, saudades e privações somadas. Foi tão cruel e estranho que às vezes soa como uma ficção indesejada, às vezes como uma sentença cumprida.

Mas, como dizia, na pandemia cada um teve que inventar seu lugar. Um abrigo. Um dos meus, dos principais, foi enfrentar certos livros clássicos que nunca havia lido. Resgatar essa dívida. O título mais marcante foi “Guerra e Paz”, aquele tijolo de narrativas (por favor, no sentido literal aqui), ideias, sensações, relações, distrações, chistes e calafrios que confronta os russos com os exércitos de Napoleão, em que Leon Tostói constrói, mais que um livro, uma espécie de enciclopédia romanceada.

Comecei a ler numa edição digital gratuita indigna de tão ruim e logo percebi que ia botar o livro a perder se continuasse. Migrei pra série em quatro volumes da L&PM de bolso e senti, assim que fiz a transição, o bafo doce daquele testemunho histórico e civilizatório.

Agora, passado o mau passadio (como diz Chico César na genial “Milhaeiro”, faixa do disco “Estado de Poesia”), voltei a brincar no terreiro dos clássicos. Encarei entre junho e julho o mais citado, bilhões de vezes adaptado (para crianças, para adolescentes, para leitores apressados, para o audiovisual, pra tudo) e nem sempre lido “Dom Quixote”. Demorou, e muito. Foi só o primeiro volume – lembrando que o segundo foi meio uma decorrência do sucesso inesperado do primeiro, não é isso, povo das Letras?




Descobri que o tão catedrático “Dom Quixote” tem uma estrutura – sem desmerecer, é só uma comparação para dar uma ideia aproximada – de um desenho animado. O livro do Miguelito que marcou a literatura ocidental ao tirar sarro dos romances de cavalaria ao mesmo tempo em que louvava sua contribuição ao culto da leitura é assim como uma coletânea de episódios do...Papa Léguas, acredite.

A prosa é saborosa e me pareceu meio recorrente, mas isso se explica fácil: claro que ler Cervantes pela primeira vez me lembraria as tantas vezes em que já li Ariano Suassuna. Óbvio: a saga mirabolante do cavaleiro delirante é a fonte de tanta,  mas tanta literatura de extração latina que está presente em quase tudo o que se leu antes. Tem Cervantes em Suassuna, Jorge Amado, Graciliano, Vargas Lhosa, Manuel Scorza (ah, Manuel Scorza, que saudade, preciso voltar a ele!) e por aí segue o fio.

Mas a estrutura do “Quixote” é de uma limpidez de córrego na Chapada dos Veadeiros, aqui perto: o velho em delírio elabora mentalmente suas aventuras se colocando como um cavaleiro de narrativas medievais dos livros em que se viciou, isso se sabe. O que eu não sabia era que essas aventuras vão sendo desfiadas de uma forma circular e repetitiva – acrescentando-se novos elementos a cada vez que se reiniciam – como num desenho animado clássico mesmo. Como o coyote Papa Léguas fazendo um plano atrás do outro pra capturar Bip Bip entre pradarias alaranjadas. Como Cebolinha e suas estratégias para derrotar Mônica e se tornar “o dono da lua”.

O clássico, amigos, é lasca. Estabelece padrões que a gente nem sonha onde estarão sendo empregados. Por isso merece o nome de clássico. Outra leitura recente me reforçou essa descoberta tardia: no livro “Homens Difíceis”, é narrada em tom de ensaio analítico o desenvolvimento das novas séries de televisão que, a partir da HBO ali dos anos 90, reinventaram o gênero num momento em que a tela nobre – o cinema – embarcava tanto no mundo do espetáculo grandioso que deixou de lado a exploração dos dramas em escala mais humana.



Está no livro os motivos que levaram a grande narrativa para a televisão e os bastidores desse processo, com destaque para o caso do roteirista criador de “Família Soprano” e do ator James Gandolfini, tão atormentado quanto seu personagem no programa de TV – o que talvez explica sua morte precoce. Algo importante entre os vários fatores que mais definem essa nova produção audiovisual está bem explicado no livro: é o abandono do célebre “arco narrativo” que a produção anterior, pré-Sopramos, pré-Breaking Bad e pré-Mad Man,só pra citar três exemplos, tanto valorizava.

Dessas séries em diante, e isso nem sempre o cinema mais autoral fazia, o anti-herói da hora era um renitente repetidor dos próprios vícios, manias, defeitos e obsessões. Figuras como Tony Soprano não “evoluem” ao longo dos episódios, como se dá no formato clássico do cinema mais consagrado e convencional, ou como mandam os manuais de roteiro. Eles se repetem, cometem os mesmos erros, insistem nas mesmas idiossincrasias não importa que obstáculo ou alavanca ou gatilho cada episódio traga. É de um realismo desanimador – mas é a nova leitura que essa onda de seriados trouxe. E também uma piscadela para o telespectador: afinal, qualquer avanço mais largo pode retirar do protagonista características que mantêm a série como série, ou seja, sem risco de resoluções (fáceis, anota o livro) que ao mesmo tempo encerram o que não tem data pra acabar - e tome temporadas sobre temporadas.

Eu disse nova? Nem tanto – e aí está “Dom Quixote” pra comprovar. O cavaleiro andante não desenvolve arco dramático algum – ele apenas teima, insiste, repete, até ser levado à força para casa no final do primeiro volume. O segundo volume me espera em setembro e a gente volta a conversar.



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