sexta-feira, 11 de agosto de 2023

DAD E A GRAMÁTICA DA SAÚDE



Dad é tudo o que está no obituário publicado hoje pelo Correio Braziliense e nem preciso dizer mais nada sobre a contribuição para um português bem falado e com real capacidade de comunicação com todos os falantes e ouvintes. Dito issoconvivi pouco com ela, mas guardo a lembrança de uma leveza - nada a ver com certo espírito castiço e emproado de quem se arma pra defender um idioma, como certos professores à antiga.


Mas Dad me deixou um outro legado, mais prosaico, de que nunca tomou conhecimento, que queria contar aqui: foi graças a um aviso dela que consegui, na terceira e muito sofrida tentativa, deixar de fumar.

Sim, Dad, como sabem, era também servidora do Senado, concursada e tudo. Então, convocado para assumir minha vaga, também de concursado, na Câmara, em 2004, ouvi dela um conselho: "Tome cuidado porque o exame médico para a admissão no quadro de servidores é muito rigoroso".

Pronto, tremi na base, como se diz. Foi ouvir aquilo e me vi impedido de entrar na Câmara por alguma condição de saúde imperfeita. Na época, eu tinha uma tontura recorrente, que hoje atribuo à hipertensão ainda não diagnosticada e também ao rigor do clima seco de Brasília entre maio e outubro.

Com medo de perder a vaga depois de tanto esforço (estudos, inclusive com aulas de regimento aos domingos, muita revisão de português em casa etc etc), aquela advertência que Dad me deu numa conversa corriqueira ficou me azucrinando a cabeça.

Tomei a decisão de parar de fumar - já havia tentado, e conseguido por pouco tempo, duas vezes antes, e voltado aos cigarrinhos. Avisei Rejane Medeiros de que eu ia ficar ainda mais insuportável do que já era (eu melhorei bastante, né, Rejane?) por falta da nicotina no sangue e comecei um programa de corridas no eixinho norte de baixo (coisa de Brasília, mas digamos que é um canteiro central de uma rua movimentada) da 212 até a 216 Norte, onde morávamos na época.

Deu certo. Obrigado, Dad. Consegui largar definitivamente o cigarro já lá se vão 19 anos (é fácil cronometrar isso, porque Cecília nasceu assim que entrei na Câmara e virou meu contador de tempo; tenho de Câmara um ano a mais do que ela tem de idade).

E chegou o grande dia, quando vim à Câmara, nos preparativos para tomar posso do cargo, para me submeter ao exame médico. Nervoso que só. Vendo a hora se barrado, morrer na praia, todos os clichês do mundo relacionados a tentativas frustradas de conseguir algo que consideramos difícil ou trabalhoso.

O médico, muito bonachão, cumprimentou-me (olha a próclise, Dad; vou lá errar logo num texto sobre você, nada...) pela entrada na Câmara, mediu pressão, aqueles procedimentos muito de rotina e assinou minha autorização. Saúde dez, bem-vindo à Câmara.

Eu fiquei tão feliz quanto aliviado - mas também desconfiado, sem entender direito. Cadê o tal rigor de que Dad me havia falado? Tempos depois entendi que ela provavelmente se referia ao exame médico que fez ao entrar no Senado - que aí, sim, com base no que Dad disse, deve ter sido bem rigoroso.

Mas, olhe, valeu ela ter me dado a advertência. Não fosse isso e eu provavelmente não teria tomado a decisão firme de parar de fumar, algo que melhorou de fato minha saúde, aumentou minha disposição e de fato me livrou até de algo muito simples mas muito chato - as novas restrições de espaço físico aos fumantes, que estavam aumentando justamente no momento em que eu entrava na Câmara.

Ô, Dad, valeu mesmo. Olha como o ser humano pode contribuir para o bem de outros seres humanos mesmo nas coisa aparentemente mais simples.

Você me ensinou a gramática do cuidado com a saúde com um conselho casual. E sempre lhe serei grato por isso.

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