quarta-feira, 14 de junho de 2023

OS SÓRDIDOS



Nunca houve tanta sordidez na televisão quanto em Succession. Twin Peaks, nos anos 80, partia de um assassinato brutal; Dallas, mais atrás, mostrava uma família se engalfinhando pelos petrodólares da época; O Salvador da Pátria, novela de Lauro Cezar Muniz na Globo do final daquela década, mostrava uma plutocracia municipal se aproveitando de um mentecapto para se manter no poder; mais recentemente em Breaking Bad acompanhamos um professor de química condenado à morte pelas próprias células em descontrole fabricando metafetaminas para making money capaz de salvar a própria pele enquanto condenava outros ao próprio fim; e a Família Soprano era uma atualização do típico retrato do mafioso contumaz apenas ajustado a uma realidade menos glamurosa do que o dos Corleone numa vizinhança mais comezinha, a sempre citada New Jersey – que falando nela, parece mais a Niterói de NYC, mas o assunto aqui é outro.

 

Recaptulando antes de chegar ao principal: Twin Peaks revelava, a partir da investigação sobre o assassinato de Laura Palmer, características bem pouco comentáveis do habitantes da cidade que dava nome à série; mas isso era narrado visualmente em meio a um climão estilizado de mistério, sem se deter tanto nos detalhes do lado sombrio dessas personagens ao menos até onde lembro (não vi tudo). Dallas era, aos olhos de hoje, um conto de fadas ambientado nas pradarias americanas em que os roteiristas se aproveitavam das falhas de caráter dos mimados integrantes da dita família para compor episódios que, no fundo, como todas as séries do tipo (e até outras que parecem falar das agruras parajurídicas do velho Oeste, como Bonanza) está apenas tecendo hipóteses sobre a natureza dos relacionamentos humanos e seus conflitos. O Salvador da Pátria era uma novela e, como tal, cheia de limites, sabemos todos. Dentro desses limites, era até bem transparente na forma como nós brasileiros, eleitos ou eleitores, lidamos com a matéria da pequena política, aquela que se dá bem longe de Brasília. Os Sopranos, ah, os Sopranos tinha como que uma camada fluida e caramelizada de simpatia que dava aquela atenuada nas vastos litros de sangue com que irrigava seus episódios, pra não falar no foco na angústia tão classe média de seu protagonista.  E Breaking Bad fazia algo muito semelhante com seu Walter White, embora as duas séries, claro, tenham alargado padrões seculares sobre o que pode e o que não pode passar na televisão só porque eram acessadas por canais a cabo onde, presumia-se, quem paga o valor da mensalidade pra ter acesso ao que é oferido sabe a capacidade de resistencia que tem ao que lhe aparece pela frente – a velha história de quem come prego, vocês sabem.

 

Talvez não seja coincidência o fato de Sucession passar no mesmo canal, a HBO, onde a licença para o que pode ou não aparecer – e não estou falando de fluidos nas cenas de sexo ou do sangue nos momentos de violencia, pois nada disso há na série, ao menos até o sétimo episódio da segunda temporada, que é onde estou – foi ainda mais turbinada pela chegada do streaming, aquele sisteminha que alguém pode até não conhecer a palavra mas sabe que é você assistir ao que quer num cardápio dado e na hora em que melhor lhe aprouver. Ou seja, acionou não reclame – o censor terá sido você mesmo.

 

Succession é o seriado do momento – começa a perder para The Last of Us, mas neste fiquei  no episódio 1 por não apreciar histórias de gente fugindo de zumbis pós-apocalipticos – e eu demorei a me apegar. Assisti a toda a primeira temporada,  um episódio aqui outro dali a 15 dias, bastante incomodado com o que disse láááá acima: nunca havia visto tanta sordidez em um grupo tão pequeno de personagens – uma família, como tantas que já vimos em séries, seriados, minissérie, filmes e novelas, pra nao falar dos livros. Cada integrante da família chefiada com mão de chumbo fervente pelo velho Logan, patriarca empresarial que fez fama por ir do setor de cruzeiros ao conglomerado de comunicação de alta popularidade e baixo conteúdo, tem sua reserva de sordidez suficiente para suportar a vida na Terra além das baratas quando o holocausto nuclear vier. 

Claro, como toda série, é aquele esquemão de júri de Programa Silvio Santos: tem o dependente químico de gravatinha – Kendall, cuja cara é recordista em inspirar piedade mais que qualquer outro rosto que jamais tenhamos visto na televisão –; a fria Shiv, que está pras louras hithcoquianas (admitam o abrasileiramento da expressão) com seu olhar gélico a esconder uma ambição em temperatura de lava vulcânica; o caçula nojetinho Roman (estou citando os apelidos, sim, às vezes eles são chamados pelos nomes completos) que a qualquer momento pode lustrar suas falas coalhadas de imagens purulentas tirando uma gosma do nariz não menos infecto como se fora uma espécie de Peter Pan da putaria; o genro Tom, a quem seria elogiar em excesso chamando de medíocre e que talvez por isso mesmo não perde uma chance de humilhar quem considera abaixo de sua insegura e falsa superioridade,  como o agregado Greg, aprendiz de feiticeiro que, lá na segunda temporada começa a mostrar que tem, sim, capacidade cognitiva de aprender com os senhores do castelo.

E nem falei de Connor que, para quem cresceu diante da televisão, da tela do cinema ou de um videocassete, será uma grata surpresa: esse parece que saiu direto daquele adolescente atrapalhado do filme Curtindo a Vida Adoidado para reaparecer, como num passe de mágica, com cara de vovo (na verdade, ele nao era nem um pouco adolescente quando atuou no filme, era apenas um ótimo ator) em Sucession. A personagem em si, ao menos até onde estou, é a menos impactante: sua sordidez nao vai além da ambição de se tornar algo assim como um Trump presidente; mas é sórdido também, ok.

A credibilidade de Brian Cox, o ator que representa Logan e cobre como um guarda-chuva de experiencia centenária todo esse elenco,  atesta qualquer audiovisual, concordemos. Com tal bagagem às costas, sua patriarcal sordidez não é do tipo estetizada – é tátil, caro telespectador, e voce vai teme-lo como se fosse mais um de seus neuróticos filhos. Porque ele, como pai, é assim como uma reserva ancestral de sordidez – e não apenas quando está negociando a compra de uma empresa como quem vai ao supermercado se abastecer de sabao em pó. Logan não confia a nem um de seus descendentes a gestão de seu patrimonio. A gente tende a concordar com ele mas mudamos de ideia quando vemos a forma como ele trata essa descendência. Nao há chance alguma de um ser humano crescer à sombra daquela pessoa – falta calor e oxigenio. E sobre quem tal homem poderoso poderia jogar com maior impulso todo o peso de seu poderio senão sobre o filho que mais ambiciona, da forma mais impulsiva e ao mesmo tempo a mais atabalhoada possível, seu lugar... Este é o Kendall de Jeremy Strong, muito justamente alçado à gloria do casting norte-americano do momento, ao lado do Pedro Pascal daquela outra série que anda nas cabeças. O Ken de Jeremy quer ser o maioral de New York mas, coitado, na hora agá, gagueja. Diante do pai, ihhh. Quando mais Brian Cox vomita com seu vozeirão o que admite ou nao do pretendo sucessor – e, pra quem nao viu nada ainda, logo no primeiro episódio ele deixa claro que nao pensa em aposentadoria tão cedo, e se pensasse talvez contrariasse as normas do negócio familiar e entregasse a gestão a alguém de fora – o gaguejante Jeremy diminui e diminui e diminui de tamanho. É um show de sordidez.

Quando estao todos juntos – e os roteiristas se esmeram em criar situaçoes assim que perduram por vários episódios, como festas e encontros com outra famílias ricas cujo patrimonio está na mira de Logan – a sordidez se espraia. É como se fosse uma guerra de cuspe, apenas o telespectador tendo o cuidado de substituir o que seriam os fluidos bucais pela soberba das palavras trocadas entre eles. Falando nisso, um detalhe: há praticamente nenhum interaçao dessa família riquíssima com os habitantes comuns da Nova York. No máximo eles tem contato com quem se coloca no caminho das compras, fusões e incorporações empresariais. Fica tudo muito trancado dentro da própria família, que guerreia muito entre si. Essa contenção talvez seja um dos motivadores de quem está do lado de cá da tela para emendar um episódio no outro. Ainda falando nisso, não recomendo que se de muita importancia às intempéries técnicas do mundo dos negócios, esse supermercado de firmas que se vende e se compra – há tanto economês corporativo que até a Folha de S. Paulo fez uma matéria pra explicar; eu tive essa dificuldade na primeira temporada mas me fixei no elenco de tipos em si e a partir do segundo episódio da segunda temporada me vi fisgado, a ponto de passar quase um dia inteiro vendo um após o outro.

Onde eu estava... ah, sim. Famílias. O seriado, ou minissérie, ou série, ou novela – e frequentemente no cinema – usa e abusa do conflito familiar e, claro, se aproveita dos seus iguais diante da tela, seja uma dos anos 70 ou as fininhas de hoje, pra parir, alimentar e ver fazer crescer seus dramas. Foi assim com Daniel Boone, Perdidos no Espaço ou até Arquivo X (sim, aquilo era uma família de dois irmaos, os agentes Mulder e Sculler, pois nao... mais familia que aquilo somente Donald e os sobrinhos). A moldura, a ambientação, o ponto de partida de cada episódio pode ser ligado a algo extra-familia mas em grande parte dos casos se trata sempre de por à prova as relações entre essas pessoas que embora fazendo parte do mesmo grupo e tento crescido na mesma casa ou partilhado o mesmo ambiente precisa e nunca deixa de achar motivo para se enfrentar e ao final se entender.

O que Sucession trouxe de novo, entao (o teclado que uso agora nao me entrega a interrogaçao e vou me virando com essas ...) Meu palpite: o streamming, ao assegurar que o espectador está baixando, ativando, pondo pra rodar algo que ele escolheu numa carta de possibilidades, admite implicitamente que o limite andou uns quilometrinhos.E Sucession faz isso, como meio que já disse aqui, não na explicitação do sexo ou da violencia: o que temos é a explicitação do escárnio, do espírito competitivo, da ambiçao mais desenfrada, do desrespeito menos admitido, numa palavra, da sordidez. Sordidez em família. O sucesso de Succession só pode ter algo a dizer sobre o tempo atual, esse recorte de o-que-mais-podemos-esperar em que estamos contidos, e que os processos políticos dos últimos cinco anos turbinaram aqui e alhures. Ali está no nosso real metaverso sem necessidade de óculos especiais. Ali podemos nos ver a olho nu. O que me preocupa é: a gente assiste porque fascinados ou porque enojados (como faz uma tecla de interrogaçao).

 

*Era pra encerrar com esse desafio retórico, mas não posso deixar de deixar um parágrafo sobre a deliciosa surpresa que vem lá pela metade da segunda temporada. Quem nos aparece assim do nada... quem... quem... Primeiro, ao ver aquele rosto um pouco tao familiar embora um pouco enrugado, voce fica assim, cutucando o HD de 50 e tantos anos, gasto como ele só. Depois que a personagem abre a boca, você diz pra voce mesmo: nepossível, só pode ser ELA.  A personagem se chama Rhea Rell, vai dar trabalho, não deve ser menos sórdida do que os demais, e se trata de ninguem menos que... (aqui é reticencia mesmo, embora sem o circunflexo que também me abandonou) holly hunter (e agora quem não me obedece é o caps lock da tecla agá, paciencia, preciso de um note book novo).

Um comentário:

  1. Sensacional, Tião. Até eu, que em matéria de séries fico limitado aos sitcoms, tô com vontade de ver.

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