A matemática tem três partes: aritmética, álgebra e geometria. De todas elas, eu prefiro Neuzete. Como tantos alunos com maior inclinação para o reino das palavras e menor para o campo dos números, eu detestava todas elas. Mas foi essa quarta parte que tomo a liberdade de personalizar aqui, Neuzete, minha escola mais particular do mundo da matemática, que me ensinou a respeitar cada uma delas.
Éramos entregues a Neuzete como verduras frescas
diretamente arrancadas das hortas caseiras. Meninos e meninas mal apresentados
aos 12 anos de idade que, repentinamente, deixavam os confortos da 4ª série
para atravessar o misterioso – mas fascinante – portal do ginásio. Adeus, professora
única, inclusive no afeto que lhes marcava a pedagogia de grupo escolar. Nunca
mais aulas contínuas onde sempre o mesmo amoroso rosto nos atendia as dúvidas e
inseguranças. Não. Agora era o ginásio, hora de começar a encarar a vida como
ela é. E lá estavam Lídia Renovato, Damião, Glória, Moacir, Antônia Zélia, Zé
Auguto, Ildelita, Hildete e tantos outros como que enfileirados para nos
receber com aquele sorriso de “agora vocês vão ver” .
Claro que não era assim: cada qual à sua maneira, os
titulares de Língua Portuguesa, Geografia, História, Inglês ou Educação Física acabavam
por emular à moda do ginásio um derivativo da pedagogia do afeto que as
professora primárias praticavam. Para pavor – hoje, podemos dizer nossa sorte –
havia Neuzete – e como a gente não
entendia o processo enquanto ele se dava...
Neuzete, além de encarnar a mais temida das matérias,
a matemática das abstrações imune a coisas como desenhos, sílabas e outros
quejandos escolares, nos recebia com uma ausência de empatia imediata, uma
maneira meio despersonalizada de ser que causava um choque imediato. Neuzete raramente
sorria, falava com um voz baixa e pausada que não poderia soar mais seca e
rígida, nos chamava para resolver problemas insolúveis no quadro como quem
chama o condenado para ouvir a sentença final no julgamento pelo mais grave dos
crimes, corrigia nossas provas com uma disposição que parecia obsessiva de
encontrar erros e imperfeições, nos chamava a atenção no dia-a-dia das aulas
com uma autoridade absoluta que nossos país jamais poderiam imaginar.
Neuzete era, em suma, a representação da
impessoalidade. Ou melhor, a impessoalidade em pessoa. E nós, recém saídos do
grupo escolar, aprendíamos com ela – sem elaborar, que é como a vida de verdade
faz – que não seríamos tratados no mundo lá fora com o mesmo paparico que
tínhamos nos nossos lindos lares.
Você que está conhecendo a pessoa agora pode estar
achando que ela era um monstro de inflexibilidade – era inflexível sim, mas não
um monstro – ou um exemplo de antiprofessor que deveria ser banido do sistema
educacional. Vamos colocar as coisas no lugar e organizar essa inesperada expressão
numérica: Neuzete era um exemplo educacional também, só que invertido, de como
se pode fazer um bando de crianças aprender, juntamente com as leis matemática,
certos mandamento não escritos da vida real. Como o fato de que relações sociais
não podem ser construídas com os mesmos tijolos daquelas que regem a interação
entre pais e filhos ou entre irmãos e amigos, por exemplo. Era preciso algum
distanciamento – e Neuzete, ao contrários dos alunos-verdurinhas saídos da horta,
sabia disso muito bem. Por que os demais professores não tinham esse conceito
em mente: porque só a matemática era objeto daquele temor.
A verdade é que Neuzete tinha um método muito próprio de praticar o ensino e
dele não abria mão. Na 5ª e na 6ª séries, que era o período em que nos encontrávamos
sob seu poder, essa forma de transmitir conhecimentos, sem abrir espaço para
qualquer traço de algo que parecesse amistoso, fazia com quem a gente se inclinasse
diante daquela missa matemática que em si mesmo já parecia tão estranha. Tivéssemos
a menor chance, a gente fugiria daquele universo de + e x, daquele idioma não
falado que exibia raciocínios de atleta quando nos obrigava a dobrar esquinas dedutivas
para decifrar problemas aparentemente insolúveis. Fosse outro professor e
aquele respeito diante da matéria não estaria garantido. Com Neuzete, estava.
Você podia até ser completamente tapado a ponto de quase não aprender e perigar
repetir de ano – mas você levava a sério aquele mundo que lhe derrotava.
Na 7ª e 8ª série, Neuzete ficava para trás e quem nos
entregava a matemática impossível de cada dia era outro professor, Dodoca. O fato
de eu ter guardado o apelido doce e não o nome verdadeiro dele já é um
indicativo do quanto as aulas eram diferentes. Pois sabem o que me aconteceu?
Aí sim eu quase caio no fosso mais do que temido da recuperação, por ler o estilo
mais leve de Dodoca como um sinal de relaxamento daquele respeito já referido.
A nota desabou no primeiro bimestre e para passar por médio no último foi
aquele drama – mas fui aprovado e me pergunto se também não foi graças a
Neuzete, que nem era mais minha professora. Ao longo do ano, o respeito
voltara.
A impessoalidade não era – posso dizer que isso não
mudou muito – algo comum naquela cidade de 14 mil habitantes onde, além de um
colégio cenecista, só havia mesmo escolas públicas como a nossa. Culturalmente
é difícil em comunidades pequenas – e por mais que a cidade tenha crescido e se
globalizado com internet e outros serviços, isso também não muda – vivenciar a
lida de todo dia sem aquela camada de camaradagem familiar ou fraternal. Todos
se conhecem, ainda que indiretamente. Num ambiente assim, tratar o outro com
distanciamento é uma verdadeira façanha. O resultado pode soar no mínimo
antipático pra não falar em consequências mais graves se o postulante não tiver
domínio do que está fazendo. Neuzete não temia exercer essa postura nas aulas
que dava. É correto dizer que o momento histórico favorecia, com a bandeira
geral do autoritarismo político cobrindo tudo e todos e suas loas muitas vezes
hipócrita ao autoritarismo e a certa correção ditada do alto de quem tem o
poder – neste caso, usurpado. Mas o estilo distanciado e sem concessões de
Neuzete não se reduzia a isso – era algo da época, mas trazia um componente que
no frigir dos relacionamentos de um grupo tão pequeno estatisticamente – olha a
matemática querendo se imiscuir na conversa – poderia, como disse, soar
extemporâneo e inadequado. Mas até onde sei, a cidade, como os alunos, aprendeu
a respeitar a proferessora tanto quanto a matemática. Não tenho conhecimento de
reclamações, além do rame-rame habitual que nós, alunos verdinhos, nunca perdíamos
a chance de praticar.
Neuzete, vista de hoje, era uma figura hard, quase um
ícone de rebeldia pedagógica se a gente a olhar de uma maneira menos apressada.
A personalidade forte fazia com que ela defendesse seu método sem que ninguém
ousasse colocá-lo em questão. Se fosse uma musicista, ela seria um gênio de
violino ao ombro, ou diante das teclas quase matemáticas do piano. Uma regente
de orquestra à altura da disputada batuta. E tudo isso chegava para nós,
alunos, assim de maneira inconsciente – sem pedagogices. Neuzete não apenas
ensinava indiretamente que a vida é dura, e a gente que se preparasse já a
partir dos 12 anos. Não só isso, ela própria era uma lição de como levar a vida
– sem recuar daquilo em que acreditava: um ensino sem facilidades inúteis, uma
didática a tirar dos alunos o melhor que eles pudessem entregar, uma condução
que não deixava os discípulos imaturos se esconderem na própria insegurança.
E eu nem vou falar da Neuzete que iria conhecer anos
depois, em circunstâncias totalmente diferentes, quando descobri que por trás
da máscara de obrigações, deveres, normas e disciplina que ela mostrava em sala
de aula havia, fora desse ambiente, uma doçura cuja intensidade equação alguma
é capaz de calcular.
Por tudo isso, obrigado, Neuzete. Eu e várias e várias gerações de ex-alunos seremos sempre gratos à sua feliz passagem por esse mundo tenso como uma prova do 4º bimestre escolar. Com os instrumentos que você nos ensinou a usar, a gente busca a aprovação todos os dias e referencia a escola que tivemos.

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