domingo, 12 de junho de 2022

Renovaram Jorge Amado



Um livro que se leu aos 20 e poucos anos e só agora, aos 56, é relido é um livro ultrapassado. Deveria ser. Sê-lo pra procliticamente combinar com a camada de naftalina. Mas, não. Jeito algum. Escrito em 1969 pelo bardo povão-comuna-lirismo-suado Jorge Amado, o velho cafetão literário que tantos garotos introduziu nas lides das boas leituras, Tenda dos Milagres soa - podem lamentar - novinho em folha. 

Estalando de novo. Escrito ontem. Onde está o delegado aboletado de poder que joga candomblés pelo ares onde quer que eles se escondam ponha qualquer desses neo-puliças-parlamentares que estão aí à escolha do neo-eleitor-freguês da hora. No lugar das levas de negros que precisam conquistar nacos de cidadania na ponta da faca dos Terrreiros de Jesus bote o Brasil quase todo de hoje - aqui ao menos, a fúria identitária faz justiça com a própria teima. 

No posto de Pedro Archanjo, o líder que junta intelectualidade com apelo sexual e postura existencial pós e pré-tudo, eleja qualquer um que se ofereça em praça pública para se debater contra o obtusidade dos anos 40 que ganhou vidinha nova em pleno terceiro milênio. Serve um deputado do PSOL ou um sertanista sumido na selva, não importa.

Tenda dos Milagres é qual um ensaio narrativo em que Jorge junta toda a malha variada da cultura popular brazuco-baiana e mostra como, da capoeira ao terreiros, foi uma perseguição só na alva pele do preconceito da poção menos retinta do lugar, a se julgar raça pura em tempos de Estado Novo e Hitler velho de guerra. Bem ultrapassado, não? 

Quem dera. Và à página 295 pra conhecer uma proposta de lei levantada por certo acadêmico da Escola de Medicina da Bahia: "O professor previa a aquisição pelo governo de território africano capaz de acolher toda a população negra e mestiça do Brasil. Uma espécie de Libéria, sem os erros da experiência norte-americana, naturalmente. No caso brasileiro, negros e mestiços, todos, se possível, seriam deportados, mandados embora de vez, para sempre." O amigo/a já se dispôs a ir ao cinema assistir ao filme Medida Provisória, feito pelo Archanjo contemporâneo Lázaro Ramos e sua turma? É o caso de alegar plágio ou ficar somente na piada recorrente resolve? Ô, se resolve.  

Um dos eixos do livro é mostrar a hipocrisia de uma barca de acadêmicos prontinhos a ver em Pedro Archanjo um visionário da antropologia e afins a partir do momento em que sua figura é aprovada por um norte-americano ganhador do prêmio Nobel. Instantaneamente passa ficar bem - e bota bem nisso - ter sempre aprovado os raríssimos livros do autodidata das ruas. E Jorge Amado, coitado, involuntariamente - não fosse a moldura história do poder à brasileira - compõe páginas e páginas sobre as raízes daquela tal meritocracia, um dos estandartes furados da brancura brasileira do século em vigor. 

Culmina em trecho em que se louva "como um menino pobre, se tiver disposição para estudar de verdade, pode ingressar na alta sociedade, entrar na universidade, ganhar muito dinheiro, viajar à beça e vir a ser uma glória do Brasil". Acho que foi daí que os redatores da Veja tiraram aquela manchete de capa sobre Joaquim Barbosa. Mas deixa pra lá que isso também tá bem, mas bem ultrapassado. E só por isso está neste blogue. 

A edição da Companhia de Bolso tem até posfácio legalzinho, mas faltou ao analista lembrar que o livro periga ser confundido com um legítimo instant book ao ser lido hoje em dia. Ultrapassado é esse blogue, isso sim. Jorge Amado, é triste, segue bem atual. 



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